quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Moonline

Ainda me encontro acordado enquanto todos dormem.
Há alguns anos apaixonei-me pela noite, e em seu tributo, só adormeço quando amanhece.
Em frente ao espelho do banheiro, diagnostico-me solitário. Por outro lado alguns dizem que se importam. Mas nós nos acostumamos a relembrar os momentos compartilhados. E os que estamos sós?
Naquele reflexo, miro meus olhos, e perdido naquele espaço verde-folha vislumbrei todo esse lapso e tive um calafrio. Estava sozinho, óbvio, sempre estive, e mesmo assim estranhei.
Apaguei a luz e re-acendi em seguida. Ainda era o mesmo. Ou não? De fato a escuridão muda um pouco as coisas. E quando retorna a luz, nem tudo está no mesmo lugar.
Quanto aos sentimentos, tento reciclá-los, mas não sou tão puro assim. Inconstantes, necessitam sempre de manutenção, como um antivírus.
Spywares insistentes tentam corromper meu sistema, envenenando-me com incertezas e outras tolices. Mando todos para a lixeira.
Mas um pedaço de mim sempre vai junto.
Delete.
Sem back-up, busco upgrades. Reinicio. A essa hora estão todos off.
Só a Lua minguante, oculta pelo teto úmido, sorri sarcástica, seu status Online...

Viva la vida

São nessas horas que a folha em branco não é nada, só um pedaço de papel esperando o próximo golpe.
Mas devo situá-los - aqui em São Paulo - Brasil - América Latina pra quem não sabe - muitas e muitas e muitas coisas acontecem todo o tempo, e tudo é tão corrido que minha caligrafia desce pelos meus dedos tão rápida e violentamente que temo não compreender o que quero explicar, entende?
Aqui eu encontro.
Eu me encontro.
E me perco, me encontrando.
Me acho me perdendo.
E gosto. Me encosto, descanso, e quando vejo
Ainda são dez horas e um novo encontro
Nunca demora. Há sempre o próximo capítulo
O próximo apocalipse - um novo holocausto? -
Mas isso é o de menos quando você vive mais
Então os bares e as cervejas e os músicos tocam e
Tocam e te tocam
Então você canta para o mundo e ele sorri
E é aí que você percebe que é tudo. Que você é tudo, e
O tudo depende de você.
Equilíbrio. Companhia. Alicerces. Bucetinhas. Bons amigos. Cervejas
E quando falta amor ou maconha, você torce pela próxima maré.
As ondas. Tubos e tubos. Então você pede que a vida seja boa com você.
E se esquece que VOCÊ tem de ser bom com a vida.
Aí você se fode. Se torna fraco e triste e talvez um suicida.
Você mergulha no abismo, e nem se dá conta de como tudo é
Tão simples.
Viva la vida!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Tardio

nesses dias de tédio sentimental, tudo que eu queria era ler algo feito pra mim e escrever pra alguém verdades absolutas sobre sentimentos aterradores que te pegam numa madrugada qualquer quando você já não tem mais ninguém pra apelar ou se apegar, quando parece que o mundo vai simplesmente acabar se ninguém disser o que deve ser dito ou fazer o que devia ser feito, mas eu penso oh deus onde eu estive perdido esse tempo todo, ninguém é mais como antes e a culpa deve ser toda minha (...)

*extraído de um comentário feito por mim em um blog abandonado.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Augusta (In-dependência)

O acordar ressacado de relógio adiantado
a hora da ida, que passa
a condução perdida me leva a encontros esperados
encarar a metrópole em boa companhia
é quase melodia para ouvidos desesperados
e chegar lá a tempo seria especial
pra quem sabe como é duro correr na direção certa
mas chegar atrasado.

eu quase sempre chego atrasado.

Na marginal penetramos a garoa
meus pensamentos tentaram correr
em direção a garota mas ela fugia
não, na verdade ela não existia ali ao meu (não) ver
eram apenas eu, dois amigos e suas amigas
jovens demais pra uma brincadeira
cara ou coroa
- gato mia?

miau.

O ônibus para e dispersa minhas visões
de menino mau, e na estação o tempo ainda corre
enquanto na Paulista uma alemã vem em rota de colisão
eu não desvio e ela quase me abraça
I'm sorry em uníssono e depois um sorriso
ruborizado e ela segue e eu não consigo
entender o porque de olhos tão azuis
me fazerem sentir como se algo tivesse congelado

aqui dentro.

Mas talvez isso fosse só o vazio do vento
frio que deixa meio londrino o clima do centro
e descendo a Augusta a única Heineken do dia
descia amarga e gostosa garganta abaixo
enquanto meus Free's iam incendiando
me fazendo de capacho, uma espécie de escravo voluntário
soltando fumaça eu pensava em como seria John Lennon
comemorando o septuagésimo aniversário

mas lembra dos ponteiros, e meu problema com horários?

Chegamos e não havia mais celebração, pessoas voltavam
ainda de longe vejo a garota, ela sorri em nossa direção
eu tento uma cara que suporte o desapontamento
desisto, assumo a decepção e aperto mão por mão
das pessoas que a garota nos apresenta
novos amigos, novos amores
novos (nem tão?) conhecidos
alguns pareciam divertidos, outros não

alguns pareciam réplicas de gente que eu já havia esquecido.

A missão agora era afogar o resto de feriado
em um mar de cervejas em qualquer um
daqueles bares de esquina
e de volta a rua Augusta observei os paulistanos
cheios de efusividade, meninos e meninas
com ares da carência típica das pessoas da cidade
e logo as duas tribos estavam ali, quase misturadas
enquanto eu girava por todos os lugares feito um Pete Doherty

tendo crises de abstinência.

7 de setembro, dia da In-Dependência
a garota me cede um cigarro, paga a cerveja
e desaparece com competência, eu agarro outro copo
fechos os olhos, sinto o cheiro da garoa
e quando os abro novamente, de súbito
tudo parece um tanto diferente
eu já não sinto nada

nada, fora sede.

Posicionado estratégicamente no centro da mesa
revezo entre as marcas de cerveja
o papo continua, o céu escurece
Pedro, Ju e Ademar continuam no triângulo
que não dá nem desce
a parte paulistana cogita um cinema
mas já era hora de voltarmos
no fim, cada um pro seu lado, sem problemas.

Subo a rua disperso em todos seus sons.

No caminho, ambulantes fogem do rapa
e no metrô ríamos cansados e satisfeitos
lembrando do show que não vimos
e dos travecos e dos garçons e das putas
e dos olhos azuis perfeitos
na estação, esperar foi o de menos
a brisa chegou antes do ônibus
graças a uma pequena dose do doce veneno

- veneno, não! medicina alternativa!

E com a cabeça ativa no caminho de volta
deixo um sorriso de leve no rosto, em minha boca
eu sinto o gosto agradável da bala de morango
Pedro cede, Ademar segue Ju que não cede
Lindsay não cala, o trânsito segue lento
a outra garota me olha, pensa, mas não fala
enquanto persigo as luzes lá fora
minha mente lança perguntas ao vento, como

Se o Amor existe, quanto tempo temos fora o agora?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Olhos de Abismo

Cápsulas de fúria estouram em meu sistema digestivo
ou digestório, não importa
tudo já é sugestivo o bastante
ridículo o suficiente no meu Mundo Ilusório
onde ser bom não é ser bobo
onde o veneno às vezes é o melhor remédio
e os bons momentos são os mais demorados.
Mas aqui há algo errado. O céu cinza inspira o tédio
e aqueles azuis são muito áridos.

Mas não é isso. Não, não é.
Sinto que querem minha pele, querem um sacrifício
que quem sabe eu apodreça na prisão
- ou em uma porra de hospício -
Mas não é isso. Não é "só" isso.
Minhas energias se esvaem e o meu sono não vem
meus amores vão, as minhas lágrimas caem
as pessoas não vêem.
Elas nunca vêem o mal que fazem.
Genocídio e desperdício.
Egoísmo.

Meu eu lírico confunde alívio e suicídio
meu "eu" eu tem crises de identidade
e vaga em delírio.
Mas não é só isso, não, não é só isso.
Entre os espectros e retrospectos tudo não
passa de mero deja vú. Vês?
Eu não vim.
Não vi.
Não venci.
Quando pude abrir os olhos
tudo estava assim: O começo esquecemos
O meio - o mais importante - ignoramos
E por fim veio o fim
e finalmente nos perdemos.

não há mais romance nem música
não há mais poesias platônicas
não há mais inspiração ou lirismo

O que resta desse poeta é meio amargo
vinte e dois megatons de tristeza
e um par de olhos que refletem o Abismo.

domingo, 15 de agosto de 2010

eu teria escrito isso se

Torna o meu leito, Colombina!
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volúpia dos meus abraços.

Os atletas poderão dar-te
O amor próximo das sevícias...
Só eu possuo a ingênua arte
Das indefiníveis carícias...

Meus magros dedos dissolutos
Conhecem todos os afagos
Para os teus olhos sempre enxutos
Mudar em dois brumosos lagos...

Quando em êxtase os olhos viro,
Ah se pudesses, fútil presa,
Sentir na dor do meu suspiro
A minha infinita tristeza!...

Insensato aquele que busca
O amor na fúria dionisíaca!
Por mim desamo a posse brusca:
A volúpia é cisma elegíaca...

A volúpia é cisma que esconde
Abismos de melancolia...
Flor de tristes pântanos onde
Mais que a morte a vida é sombria...

Minh'alma lírica de amante
Despedaçada de soluços,
Minh'alma ingênua, extravagante,
Aspira a desoras de bruços.

Não às alegrias impuras,
Mas a aquelas rosas simbólicas
De vossas ardentes ternuras,
Grandes místicas melancólicas!...

do grande manuel bandeira - Pierrot Místico

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

quinta 12 / sexta 13 [poeminha]


céu azul, luaR crescente e logo noite,
lua de sorriso amarelo minguante,
me lembra o mel de noites distantes,
mas logo as estrelas caem...
e me sinto incompleto e radiante!