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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Escapismo #1




Acordou com dificuldade,
os sonhos por piores que fossem, eram apenas sonhos.
Restava ainda a sensação de alívio,
havia se livrado mais uma vez de viver aquelas vidas.

Mais um dia começava com outra fuga bem-sucedida.

O que o levaria de volta ao começo, que por melhor que fosse,
era apenas mais um começo.
Restava ainda um sentimento agridoce,
poderia escolher dessa vez algum novo caminho.

E outro novo dia seguia ecoando a velha pergunta:
- de que vale uma vida que se sonha sozinho?

terça-feira, 26 de abril de 2011

e O Silêncio

fechado em meu silêncio
eu abstraio o estrondo exterior
e apenas espero o tempo correr
e ele escorre
eu olho
tento sentir o mínimo
meu ânima sem muito
ânimo
em estado de espera
nem se desespera
respira, acalma
a alma, inspira
a calma (ainda não)
acaba.

As Folhas

uma menina muito branca
caminha sob um céu azul
observando as folhas secas
antes muito verdes
caírem no chão cinza.

ela nem se pergunta porque.

O Vento

o vento do outono novamente me arrepia a nuca
ele sempre traz um pouco da velha desolação
eu me sinto sempre desprotegido quando ele sopra
e me envolve
me faz querer ser envolvido
devolvido
ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

15 Passos

eu dei pra ela um amor que eu não tinha.
eu sei, eu sei como. eu sei que não podia tanto quanto devia.
eu sei. mas mesmo assim eu dei.
eu dei por que sei que ela precisava mais que eu.
eu sei que não havia, por isso inventei.
mas isso não se pode chamar de mentira, porque é verdade.
e verdade por verdade...só depende de quem acredita.

eu acreditei.

eu acreditei nos olhos, e perdi a fé.
acreditei na matéria, na ciência.
eu peguei a pá, desandei a pé.
duvidei do destino, perdi a paciência.

doei tudo que tinha, abri minhas gavetas
revirei os armários, os meus bolsos
escondi meus cadernos, ignorei meu passado
e preenchi o mundo dela.

o meu esvaziei.

e no meu vazio, a cheia dela me inundava.
passaram-se carnavais
sua luz de lua crescente me cegava.
apagavam-se os sinais
minha estrela distante quase não brilhava.
mais, mais, mais, mas
me sentia minguando...e de tão leve e entorpecido

parecia que flutuava.

cheguei a estratosfera
vi o planeta nascer
o sol raiar
a noite cair
e o ciclo recomeçar
mas aí começou
começou a faltar ar
então sua voz era apenas um grito
violento, imperativo

parecia que queria me ferir
me isolar
me banir, me bater
me impedir de querer
eu só queria, eu só queria você
eu só queria morrer (como pude terminar onde comecei?)
ou então acordar (como pude terminar onde eu errei?)

você nunca quis perder, mas não soube como ganhar

mas era só a queda, a minha queda.
o voo inevitável rumo ao eu que ignorei.
o mergulho. meu inexorável retorno ao que
jamais deixei de ser. é, eu voltei.
eu. aquele. que. não. consegue. viver. dando. amor.
sem. receber. um pouco. ao menos. de. calor.

então finalmente o seu fio desenrolou.
rompeu-se o velho e mórbido silêncio.
e o frio me despertou, o apetite de algo que não seja sem sabor.
o gosto pelas velhas e boas e doces palavras. os vinhos e a música.
a curiosidade em sentir de novo o que pode ser o amor.
você tem fatos para o que quer que seja.
a licença poética de ligar as 3 am pra investigar a distância
que você mesma criou entre o que você faz e o que deseja
o que eu faço longe da tua corrente
ou que maré é essa que me arrasta pelo rio
e faz querer me deixar levar pela correnteza.

mas eu não tirarei meus olhos da bola novamente
eu não quero mais as certezas nem as celas
você sempre me enrola e depois corta o fio.
eu já não vejo mais beleza nesse meu sacrifício
eu já te dei vida, pequena, um novo solstício
e não quero mais esse stand-by, não quero mais
precisar de airbags a cada conversa
não quero mais olhar teus olhos parados tentando me parar
como se fossem braços, eu estou indo embora, amor

só mais 15 passos.









segunda-feira, 29 de novembro de 2010

De:

Deusa encarnada em sua irresistível forma humana
Boca feita de algum tecido celestial
Raros são os que ficam impassíveis ao seu toque macio
Seu gosto surreal testa a sanidade dos escolhidos
Confunde seus sentidos e desperta seus instintos
Os olhos hipnóticos tornam impossíveis os movimentos
Durante a eternidade que duram tais momentos
E suas vítimas cedem e gozam de tal tormento.
Sua presença é feito um fenômeno da natureza
Furacão nas cabeças dos garotos; vendaval
Corrosão no ego das mulheres, vulcão em erupção
Engole os homens descuidados com seu magma e
Causa taquicardia no coração das estátuas
Derrete calotas polares e inunda as cidades com a
Divina Beleza, e os prédios tremem enquanto ela
Caminha com volúpia, na mais suave delicadeza.
Qual mistério, que segredo guarda em tua intocável profundeza?
Que monumento poderia superar a inexplicável simplicidade
Da tua grandeza?
Pobre dos que se pensam sábios para decifrar
Pobre dos profetas que tentam prevê-la
Pobre dos felizes que podem amar-te sem nunca tê-la
E pobre dos poetas! Ah...pobre dos poetas
Cheios de platonismo e tristeza, que vivem
Para eternizá-la em seus versos, sonhando inspirá-la
Para depois soprar ao mundo tuas maravilhas
De menina-mulher com ares de deusa
Deusa das deusas.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Explicações (uma tentativa)

Eu tenho tentado sorrir, mas dói. Como se essa licença me tivesse sido tirada, como se o rasgo na minha cara fosse costurado, como se parecesse algo sempre simulado. Nunca os cigarros queimaram tão rápido e ansiosos por evaporarem me consumindo, nunca os consumi com tanto asco, me sentindo obrigado a ser tragado pela fumaça que finge me aliviar e me levar com ela pra longe, para o cume do ar.
Eu tenho tentado viver em paz, sem escolher um lado, sem ignorar meu fardo, sem esquecer meu passado mesmo sendo tentado. Não consigo mais ser tão dissimulado. Ser eu no palco e fora dele um ator. Ser contaminado pela descrença alheia, ser só mais um idealista a afundar nessa coisa movediça, nessa areia composta dos restos dos sonhos de gente que desiste. Eu insisto. Eu existo, acho.
Eu tenho sido incapaz de amar mais. Tenho o que veio antes e o que vem depois mas não sei o que fazer agora nesse limbo de existência, o meu eu. Eu esse que não aprende a se prender, continuamente se desprende com excelência, deixando coisas pendentes, caindo eternamente feito estrela cadente com um brilho fosco de abajur antigo de um tempo decadente.
Esse eu deveria ser outro. Deveria ser o que os outros veem. O holograma. A pintura. O intelecto, o charme, os olhos, a cultura, o som, o beijo, o abraço, o estilo, a pica dura. Mas não. Esse eu é outro. Esse aqui é mais real, mais perdido. Esse aqui tem dúvidas e dentes a menos. Tem a doença de sempre querer uma cura.
Onde está a cura afinal?
Pra minha EQM constante, qual a solução pra esse eu que não consegue deixar de ser uma tristeza ambulante, um pedinte mendicante que não consegue dar amor? Eu não posso fingir felicidade, se tudo que sinto é dor, não posso despertar estando chapado nesse torpor.
Sinto que não posso esperar a salvação chegar, nem a loucura passar e muito menos minha vida naufragar. Sinto que não posso me entregar a algo que me consome, que me engole e me vomita todo dia e nas noites me mastiga devagar.
Sinto que disse e disse e disse, sem conseguir explicar. Outra vez falhei.
Sinto que sendo inútil então dizer, talvez seja melhor calar.
Calei.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Augusta (In-dependência)

O acordar ressacado de relógio adiantado
a hora da ida, que passa
a condução perdida me leva a encontros esperados
encarar a metrópole em boa companhia
é quase melodia para ouvidos desesperados
e chegar lá a tempo seria especial
pra quem sabe como é duro correr na direção certa
mas chegar atrasado.

eu quase sempre chego atrasado.

Na marginal penetramos a garoa
meus pensamentos tentaram correr
em direção a garota mas ela fugia
não, na verdade ela não existia ali ao meu (não) ver
eram apenas eu, dois amigos e suas amigas
jovens demais pra uma brincadeira
cara ou coroa
- gato mia?

miau.

O ônibus para e dispersa minhas visões
de menino mau, e na estação o tempo ainda corre
enquanto na Paulista uma alemã vem em rota de colisão
eu não desvio e ela quase me abraça
I'm sorry em uníssono e depois um sorriso
ruborizado e ela segue e eu não consigo
entender o porque de olhos tão azuis
me fazerem sentir como se algo tivesse congelado

aqui dentro.

Mas talvez isso fosse só o vazio do vento
frio que deixa meio londrino o clima do centro
e descendo a Augusta a única Heineken do dia
descia amarga e gostosa garganta abaixo
enquanto meus Free's iam incendiando
me fazendo de capacho, uma espécie de escravo voluntário
soltando fumaça eu pensava em como seria John Lennon
comemorando o septuagésimo aniversário

mas lembra dos ponteiros, e meu problema com horários?

Chegamos e não havia mais celebração, pessoas voltavam
ainda de longe vejo a garota, ela sorri em nossa direção
eu tento uma cara que suporte o desapontamento
desisto, assumo a decepção e aperto mão por mão
das pessoas que a garota nos apresenta
novos amigos, novos amores
novos (nem tão?) conhecidos
alguns pareciam divertidos, outros não

alguns pareciam réplicas de gente que eu já havia esquecido.

A missão agora era afogar o resto de feriado
em um mar de cervejas em qualquer um
daqueles bares de esquina
e de volta a rua Augusta observei os paulistanos
cheios de efusividade, meninos e meninas
com ares da carência típica das pessoas da cidade
e logo as duas tribos estavam ali, quase misturadas
enquanto eu girava por todos os lugares feito um Pete Doherty

tendo crises de abstinência.

7 de setembro, dia da In-Dependência
a garota me cede um cigarro, paga a cerveja
e desaparece com competência, eu agarro outro copo
fechos os olhos, sinto o cheiro da garoa
e quando os abro novamente, de súbito
tudo parece um tanto diferente
eu já não sinto nada

nada, fora sede.

Posicionado estratégicamente no centro da mesa
revezo entre as marcas de cerveja
o papo continua, o céu escurece
Pedro, Ju e Ademar continuam no triângulo
que não dá nem desce
a parte paulistana cogita um cinema
mas já era hora de voltarmos
no fim, cada um pro seu lado, sem problemas.

Subo a rua disperso em todos seus sons.

No caminho, ambulantes fogem do rapa
e no metrô ríamos cansados e satisfeitos
lembrando do show que não vimos
e dos travecos e dos garçons e das putas
e dos olhos azuis perfeitos
na estação, esperar foi o de menos
a brisa chegou antes do ônibus
graças a uma pequena dose do doce veneno

- veneno, não! medicina alternativa!

E com a cabeça ativa no caminho de volta
deixo um sorriso de leve no rosto, em minha boca
eu sinto o gosto agradável da bala de morango
Pedro cede, Ademar segue Ju que não cede
Lindsay não cala, o trânsito segue lento
a outra garota me olha, pensa, mas não fala
enquanto persigo as luzes lá fora
minha mente lança perguntas ao vento, como

Se o Amor existe, quanto tempo temos fora o agora?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Olhos de Abismo

Cápsulas de fúria estouram em meu sistema digestivo
ou digestório, não importa
tudo já é sugestivo o bastante
ridículo o suficiente no meu Mundo Ilusório
onde ser bom não é ser bobo
onde o veneno às vezes é o melhor remédio
e os bons momentos são os mais demorados.
Mas aqui há algo errado. O céu cinza inspira o tédio
e aqueles azuis são muito áridos.

Mas não é isso. Não, não é.
Sinto que querem minha pele, querem um sacrifício
que quem sabe eu apodreça na prisão
- ou em uma porra de hospício -
Mas não é isso. Não é "só" isso.
Minhas energias se esvaem e o meu sono não vem
meus amores vão, as minhas lágrimas caem
as pessoas não vêem.
Elas nunca vêem o mal que fazem.
Genocídio e desperdício.
Egoísmo.

Meu eu lírico confunde alívio e suicídio
meu "eu" eu tem crises de identidade
e vaga em delírio.
Mas não é só isso, não, não é só isso.
Entre os espectros e retrospectos tudo não
passa de mero deja vú. Vês?
Eu não vim.
Não vi.
Não venci.
Quando pude abrir os olhos
tudo estava assim: O começo esquecemos
O meio - o mais importante - ignoramos
E por fim veio o fim
e finalmente nos perdemos.

não há mais romance nem música
não há mais poesias platônicas
não há mais inspiração ou lirismo

O que resta desse poeta é meio amargo
vinte e dois megatons de tristeza
e um par de olhos que refletem o Abismo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

quinta 12 / sexta 13 [poeminha]


céu azul, luaR crescente e logo noite,
lua de sorriso amarelo minguante,
me lembra o mel de noites distantes,
mas logo as estrelas caem...
e me sinto incompleto e radiante!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Solitário (Matando a fome com cigarros)

Matando a fome com cigarros, o solitário
Engolindo palavras, expelindo catarro
E a sede que não cessa com a água do aquário
Os lençóis que abraçam não afagam
Os lábios que se trincam feito barro
Buscam refúgio em lembranças que se apagam

Meus amores escondidos no armário
Envelhecem no papel
Na distância segura dos que sentem
Na calma fria dos que mentem
Quem faria o contrário?

Eu faria se soubesse não ser louco
Não hesitaria, nem centímetro deixaria
Entre um corpo e outro, junto soaria pouco
Um só chegaria perto de ser certo

Mesmo sendo inexato
Seria sensato
Ao menos quente

No mais, menos demente acaba
O cego que tem tato

E o solitário, nesse hiato
que de sono desaba





quinta-feira, 19 de novembro de 2009

01:36

seu silêncio me dá vontade de gritar
mas meu grito silencia
mais um trago engolido à seco
mais um sopro calado
outro poema suprimido.

dorflex, i love you so

Desperto por volta das oito da manhã
faz um dia lindo de primavera lá fora
mas no momento isso não importa
me levanto desnorteado e rumo à cozinha
uma dor lancinante percorre meu rosto
como se houvesse uma faca cravada em meu
maxilar, mas não há nada
eu abro o armário e minhas mãos trêmulas
reviram vasilhas e taplewares em busca
de analgésicos
encontro, engulo um que desliza junto
com um pouco do café de ontem
acendo um cigarro enquanto ando em
direção ao espelho, me olho
sinto medo e nojo e raiva e dor
ao notar minha face direita inchada
recheada pelo pus entumescido
inflamada
e pulsando, pulsando
pulsando.
Ando de um lado a outro sem parar
a vontade real é de ver tudo foder
quebrar, estremecer e sangrar
o instinto é o de gritar, espremer
arrancar, mas nada faço
só ando e penso penso penso
que a culpa é toda minha e isso me deixa pior
não poder culpar ninguém pela minha
degradação. Fico tenso. Outro analgésico
outro cigarro, evito o espelho porque
se eu olho dói mais além.
Ligo pra minha dentista, preciso vê-la urgente
ela marca comigo pras onze
eu fico esperando a hora passar
ela passa doendo, eu saio
chego no consultório mais monstro que gente.
Ela é bonita e simpática e me olha serena
não se importa que eu pareça o Fofão
enquanto diz que vai me apertar até
que todo o mal desapareça e eu consinto
ela falando com aquele sorriso
não parece nada mal, não
me sento em sua cadeira reclinável
a luz branca apontada pra mim
e ela começa, com sua seringa cheia
daquele líquido adorável
me encharca, anestesiado eu me sinto bem
então ela me aperta e aperta forte
eu fecho os olhos e espero ela terminar
e ela termina e eu pergunto
“foi bom pra você”?
Ela diz, “o quê”?
Eu digo, “nada”
então ela me mostra um copo de plástico
cheio de um liquido amarelo escuro
espesso
ri e pergunta se estou servido
mas eu declino, agradeço e me retiro
no corredor observo meu reflexo
que incrivelmente se parece comigo
me sinto um tolo feliz e mais leve
meu rosto formiga de um jeito engraçado
acendo um cigarro e caminho por aí
ninguém parece se assustar
não há sobressalto
apenas uma brisa leve
de um lindo dia de primavera
eu, e meu sorriso torto
anestesiado.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Volta.

minha mãe levanta a cabeça do colchão
me manda dormir
não vê que tento me redimir
escrevendo essas linhas depois de meses
de Pura paralisia literária
ela diz isso e volta a sonhar
eu fico aqui tentando espantar a catarse
remover o mofo acumulado nos meus versos
injetar nova energia
explorar outros universos
e toda essa doença instalada
já não me aterroriza
se ainda me resta poesia
e quando me perguntam o que faço
eu logo digo: nada
pois se digo que atuo e escrevo
pensam na hora que sou vagabundo
há algo de errado com esse mundo
ao menos nessa parte
artistas não são putas
nem santos, nem mártires
talvez heróis loucos
irremediavelmente apaixonados pela arte.
é difícil ser escritor
há de se ter coragem, insistência
persistência, paciência e
alguns cigarros pra queimar, enquanto tento
dispersar o branco da folha que me esvazia
a mente quando toco o caderno.
não sou obsessivo. até gostaria.
cismar de me trancar no quarto e só
sair quando escrever algo decente.
mas isso seria perigoso, talvez morresse de fome
antes de vomitar uma pérola. mas a dificuldade inspira.
se fosse fácil eu nem tentava.
bloqueio criativo é como um câncer.
se você não faz nada ele cresce e se alastra.
metástase que come inspiração à la pac-man
até que nada mais reste fora o branco
e o som do vazio.
então você tem de escolher.
abraçar o silêncio enquanto as folhas amarelam
ou gritar com tinta antes que todos se esqueçam.
agora me lembro.
sim, eu já escolhi.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sobre meninos e deusas

Despertou como se houvesse despencado de um penhasco direto em sua cama. Pode ouvir uma espécie de estalo, como se sua alma estivesse mesmo muito longe, e fosse tragada de volta violentamente, atravessando qualquer tempestade ou arranha-céu ou parede que os separasse para cair novamente naquele corpo franzino, que dormia sonhos intranquilos no cômodo escuro. Talvez ela não tivesse realizado um encaixe perfeito, depois do pouso forçado, ou talvez aquela sensação estranha que ele sentia se devesse apenas aos sonhos tumultuados em imagens muito rápidas e vertiginosas, que ora o remetiam à acontecimentos de sua infância, ora lançavam imagens surreais de antigos deuses que vinham cobrar-lhe algo que nunca soubera que devia, fazendo-o alucinar cenas de castigo e danação eterna. Dessa vez foi Kali, assustadora com seus três pares de braços, armada até os dentes e sedenta por destruição, quem veio assombrá-lo.

Sentou na cama, limpando o suor da testa com as mãos, respirando fundo e olhando ao redor para reconhecer a mobília do quarto, para certificar-se que acordara exatamente onde dormira. Provou uma vez mais aquela sensação estranha e gratificante de estar vivo, e tirou os pés descalços da cama, tocando o chão frio. Ainda estava escuro e ele não sabia que horas eram. Não podia saber o que esse dia lhe reservava. Não se daria conta até o ultimo segundo desse dia, que poderia ser apenas mais um, mas seria o efêmero. O mais belo e estranho deles. Também seria o último.

Banhou-se demoradamente, repassando mentalmente tudo que diria na reunião marcada para as nove da manhã com o diretor de cultura do município, na qual trataria sobre a restauração do antigo Cineteatro da cidade. Estava até certo ponto confiante e um pouco ansioso. Havia trabalhado durante meses redigindo o projeto, distanciando-se de amigos e de seus próprios projetos, empenhando tempo e até mesmo um pouco de seu pouco dinheiro nesse sonho, que não era apenas seu. Lembrou-se das tantas sessões que acompanhara ao lado de sua mãe, que trabalhou durante muitos anos na bilheteria, antes de perder a saúde e ter de se afastar.

Já havia amanhecido quando passou sua roupa e engraxou os sapatos. Escolheu sua gravata amarela, presente que recebeu de sua mãe quando completou 15 anos. Ela dizia que realçava seus olhos. Ele a usara apenas duas vezes até então; a primeira na formatura do ginásio e a segunda no funeral da mãe. Nas duas ocasiões, quem reparou naqueles olhos, saberia que ela estava certa.

No horário marcado ele estava lá. Aguardando do lado de fora da sala, fitava a porta fechada. Depois de cerca de quarenta minutos, a secretária pediu que ele entrasse. O diretor estava sentado à sua mesa, com seu porte avantajado espalhado na cadeira, careca lustrosa e bigode impecável.

- Sente-se, meu jovem, disse ele ajeitando-se.

- Claro, obrigado, ele respondeu, sentando-se à frente do homem.

- Pois então, você disse que queria mostrar-me algo, fique à vontade, disse o diretor, fingindo interesse.

- Sim, sim, eu vim porque escrevi um projeto que visa a recuperação do antigo Cineteatro, que é um patrimônio da cidade e que foi abandonado, por que não dá uma olhada?, disse, entregando uma pasta ao diretor.

Olhava com expectativa, mas não demorou muito para ter certeza de que o que mais temia iria acontecer. Ele nem abriu, não leu uma linha, apenas segurou a pasta com aquelas mãos inchadas, gesticulando e falando com aquele olhar que transpassa sem nada notar. Começou dizendo que era uma questão deveras complexa e que na atual conjuntura, aquilo não estava nos planos e que não haveria como pautar aquilo no momento, pois haviam outras prioridades, e nessa altura o jovem rapaz já não conseguia ouvir o que ele dizia, mas já sabia de cor o que ele diria e sabia que era irreversível, só conseguia olhar para a pasta que balançava entre aqueles dedos e o suor que brotava daquele bigode e para a luz que refletia naquela cabeça, olhou em volta, para a porta, sentindo-se nauseado, quase nocauteado por aquela verdade podre na qual nunca quis acreditar, mas que sempre estivera ali.

O diretor ainda falava quando ele pediu licença e saiu da sala sem olhar para trás. Afrouxando a gravata para conseguir quem sabe um pouco mais de ar, deixou o prédio da prefeitura, sentindo ainda aquela coisa presa entre o peito e a garganta, que pulsava, pulsava e não saía. Não saberia explicar, não era apenas raiva ou desapontamento ou tristeza, revolta, inconformismo. Talvez fosse tudo aquilo, talvez fosse apenas o vazio enorme que sentia, que pesava tanto. Talvez a revelação de que seu sonho estava morto doesse muito mais do que correr uma vida inteira na esperança de alcançá-lo. Era fato.

Andou desnorteado até a praça da cidade, e naquela manhã de fim de inverno, o vento frio soprava constante, fazendo voar pétalas amarelas de flores precoces que morriam antes da primavera e passavam por ele em rasantes e rodopios loucos antes de esvoaçarem novamente em outras direções. Sentou desolado num dos bancos, observando aquele microcosmo que todos os dias povoava aquele lugar; os velhos que trocavam relógios e as crianças que olhavam fascinadas o chafariz e os bêbados que buscavam a cura de suas abstinências e o esquecimento de suas tragédias, e os pombos...

Pensou naquela cidade que nunca lhe dera motivos para se orgulhar, e em como tinha vindo parar ali, e em como uma sucessão de acontecimentos aleatórios, na vida de seus pais e na vida dos pais dos seus pais, haviam levado a outros tantos fatos, que o levariam até aquela praça, naquele dia. Já havia ouvido falar no Devir dos gregos arcaicos, o fluxo contínuo de transformação da vida, só não havia conseguido a fórmula mágica para sincronizar num instante supremo o seu desejo pessoal com o desejo universal dos acontecimentos.

Sentiu como se houvesse perdido a chance, e nunca soube que ela nunca existiu, não ali.

Resolveu fazer uma nova visita a seu refúgio favorito, o antigo Cineteatro. Também não poderia prever o iminente encontro que teria com seu Destino, não poderia. E quando começou a caminhar lentamente até os acontecimentos, o fez olhando os próprios passos, não poderia notar os presságios no céu, que agora tinha nuvens mais densas que se aproximavam umas das outras sobre a cidade, enquanto ele seguia imerso em seus pensamentos sorumbáticos repletos de perguntas pertinentes e sem respostas.

Passou pela velha fachada, empoeirada, em direção à entrada lateral, antiga saída de emergência. Cenas antigas lhe passavam pela cabeça, fantasmas de antigos expectadores passavam por ele, que quase podia sentir o cheiro que aquele lugar tinha, há dez anos atrás.

Entrou pela porta dupla de metal e contemplou o palco vazio, tomado de poeira, e depois as poltronas vermelhas que se estendiam até o fim do corredor. Estava mais escuro do que de costume, àquela hora da manhã o sol já havia desaparecido por detrás dos cumulos nimbos, então resolveu caminhar até a sala do projetor, onde guardava alguns pacotes de velas que usava para iluminar o local quando trazia alguns amigos para saraus secretos durante as madrugadas.

Foi quando ouviu um clique, como de uma câmera. Subiu um lance da escada, devagar. Seu coração batia forte e devagar, como que para não fazer barulho. Já havia acontecido de encontrar moradores de rua vagando por ali uma ou outra vez. Decidiu se manifestar, tentar contato.

- Hey, tem alguém aí em cima?

Silêncio na sala.

Ele foi subindo lentamente, até que viu uma silhueta nas sombras.

- Olá?! Disse, tentando estabelecer contato com a sombra, que fez um movimento, como se fosse sacar algo do bolso, o que de fato fez. O movimento o fez paralisar, e congelado, esperou o pior. A sombra que havia sacado algo do bolso, agora esticava o braço em sua direção, apontando-lhe o que supôs que fosse uma arma, supôs não, teve tanta certeza que fechou os olhos para não ver. Depois ouviu um clique e sentiu a luz tocar-lhe o rosto. Como nada doía, decidiu abrir os olhos, então viu que a sombra apontava-lhe uma lanterna.

Começou a rir nervosamente, aliviado, e sentindo-se meio bobo. Olhou para a sombra e disse: - Achei que ia morrer agora! A sombra riu e disse: - Me desculpe, não queria assustá-lo, mas é que me assustei também! E quando ele começaria a imaginar que feição aquela voz de garota tinha, ela iluminou o próprio rosto com a lanterna, como que naqueles filmes de terror, mas o que ele viu não era nada aterrorizador, pelo contrário. Era linda. Bem branca e de cabelos bem curtos, tinha uns olhos que não achavam um consenso entre verde e azul, e que o olhavam cheios de curiosidade. E tinha algo que parecia uma câmera fotográfica pendurada no pescoço.

Ele disse à ela que achava que só ele gostava daquele lugar, e ela disse o mesmo. Ela disse que vinha às vezes fazer umas fotos, e que achava uma pena um lugar daqueles estar abandonado. Disse que se sentia tão abandonada quanto, por não ter um teatro para poder ver os filmes e as peças que adorava. Ele acendeu algumas velas, ela acendeu um cigarro e eles conversaram sobre teatro e cinema, filosofia e tédio, política e poesia. Ele contou sobre o que aconteceu mais cedo naquela manhã e ela indignou-se. Ela lhe contou aventuras do tempo da escola e ele riu. Descobriram que foram vizinhos quando crianças, e acharam absurdo não terem se conhecido antes. Ele criou diferentes iluminações com as velas nos corredores e no palco e ela fez fotos ótimas.

Conversaram como velhos amigos, trocaram confidencias. Ele falou sobre a falta que sentia da mãe, e ela confessou que odiava o pai. Enquanto isso, a roda do destino seguia no seu pique incessante rumo ao inexorável. Eram por volta das 1:30 da tarde e o céu já estava escuro, quando os primeiros trovões puderam ser ouvidos.

Ele nunca havia se sentido tão bem, e tão disposto a falar com alguém como acontecia agora, com aquela garota, e enquanto a ouvia falar, sentia uma sensação estranha, como se algo formigasse dentro dele, e as mãos suavam sem motivo aparente. O coração batia numa levada inédita e cheia de ritmo. As palavras saíam com enorme facilidade, sem pensar, como se fossem feitas pra ela. Aquele lugar que seria a suposta sepultura de seu sonho, tornara-se diferente, era agora o local de nascimento de uma nova vontade de viver.

Mas de repente, depois de tanto conversarem, houve um hiato, e veio o silêncio. Ela o olhava com seu jeito de perguntar sem nada dizer. Ele respirou, e olhando para a vela que estava entre eles, perguntou a ela qual havia sido a última vez que se apaixonara por alguém, e só então a olhou nos olhos.

Ela abraçou as pernas flexionadas contra o corpo, e olhou para o buraco no teto do prédio, e nesse momento ele pensou ter estragado tudo por ter sido afoito e não se conter o bastante. Então ela voltou seu olhar para ele, e esticando uma das pernas concluiu: - Há mais ou menos umas duas horas...

Ele enrubesceu de excitação e seu coração parecia que ia explodir, mas ele ainda a olhou e perguntou por quem e ela riu e deixou-se cair de costas no palco. Essa foi a deixa para que ele a beijasse e a introdução dos momentos eternos que se sucederam, e que seriam o mais próximo que ele chegou da divindade, o mais próximo que chegou de ser completamente feliz. A garota tinha nome de Deusa egípcia, chamava-se Ísis.

Alheio àquela aura de amor e mágica, o céu lá fora se transformava num teto de concreto, prestes a desabar. Os trovões ouvidos lembravam bombas de guerra, e a todo instante pipocavam flashes de luz, como se fosse um aviso, um toque de recolher.

Ísis precisava ir embora, lembrou-se de que havia marcado de buscar umas fotos, então despediram-se longamente, em meio à promessas de encontrarem-se novamente e trilhar um caminho juntos. Ele acompanhou-a até o lado de fora, e observou-a caminhar até sumir de vista, o que não aconteceu sem que ela olhasse uma última vez e sorrisse o sorriso mais bonito e terno do mundo.

Quando dobrou a esquina, ela parou um instante e encostou-se numa parede, fechou os olhos e inspirou um longo trago de ar úmido, sentindo-se banhada de vida por dentro. Tocou os lábios com os dedos, estimulando a memória recente dos beijos cálidos cheios de ânsia e paixão, e pensou que se o mundo inteiro se sentisse como ela naquele instante, qualquer forma de maldade seria sem sentido e necessidade. Sentia que amava a todas as coisas, e seus medos todos haviam evaporado e se transformado em algo forte como a fé, subindo aos céus como preces doces de agradecimento.

Ele havia olhado o céu escuro uma última vez antes de entrar, recolheria as velas e depois sairia. Enquanto fazia isso, pensou nos rumos tortos do destino, que nos ludibria a todos quando faz coisas realmente ruins acontecerem em nome de um bem maior posterior.

O Destino, ou seja lá o que controle as engrenagens complexas da existência, já tinha um plano traçado e todos os instrumentos à mão. Era chegado o momento, e uma pancada de chuva escorregou das nuvens pouco depois da garota decidir voltar para os braços do rapaz com nome de menino brasileiro, que soava suave aos seus ouvidos. Caê.

Por mais que ela corresse, não chegaria a tempo. Estava ela também inclusa nas linhas invisíveis que estavam sendo escritas sem que ninguém soubesse.

Já havia guardado as velas quando ouviu o som da chuva que molhava a garota e a cidade, e no corredor rente ao palco tinha a visão distante do portão externo que se abriu. Alguém caminhava rumo à entrada, parecia ela, mas não podia ter certeza por causa dos relâmpagos sucessivos, que davam aquele efeito de discoteca, quadro a quadro, passo a passo cada vez mais perto.

Ela chegou a três passos da porta e sacou a lanterna para iluminar o salão escuro, logo o viu e piscou a luz três vezes. Vendo a luz então ele teve certeza e caminhou para ela. A três passos da porta ele parou e a olhou sorrindo, ela também sorriu parada e tudo isso durou uns três segundos.

Ele abriu os braços e ela deu um passo na direção dele, e nesse momento um relâmpago os cegou, e o que se seguiu foi um estrondo muito próximo, e uma nuvem de poeira que a engoliu sem mastigar.

Após momentos de pura confusão, ela pode abrir os olhos e verificar que o que antes era a porta e todo o espaço do palco e das primeiras fileiras era agora um amontoado enorme de entulho e escombros, e sem conseguir se mover gritou tão alto que momentos depois os vizinhos do local já a amparavam em estado de choque, enquanto telefonavam para o resgate.

Encontraram-no horas depois, sem vida.

Ela não foi ao funeral, sempre preferiu conservar a imagem viva das pessoas. Pensava que seria como admirar o casulo ao invés da borboleta. Os primeiros meses após o incidente foram muito difíceis, mas serviram para que ela se reaproximasse de seu pai, melhorando muito a relação antes conturbada entre os dois.

O pai dela era um empresário muito bem sucedido, e um ano depois, ele encontrou o antigo projeto de reabilitação do Cineteatro, escrito pelo garoto, e ele e Ísis juntaram energias e captaram recursos, e mais um ano depois o re-inauguraram, e batizaram-no com o nome do rapaz.

Com isso, mais um ciclo havia se fechado e a vida seguiu seu curso. Em algum lugar, ele sorria satisfeito ao lado de sua mãe, agora com a compreensão plena de que havia escolhido dessa forma. Os dois agora olhavam por Ísis, que dedicava sua vida à arte e a cultura, e que todos os dias antes de dormir lembrava dele e se perguntava porque das coisas terem acontecido assim.

Um dia ela saberia.

 

terça-feira, 24 de março de 2009

Karma knockout

Não não não não


É apenas negação

Karma knockout

Outro beijo no chão.

Eu continuo morrendo

Ele continua correndo

Ela segue sentindo.

Estamos todos vivendo

De que?

Quase sempre mentindo.

Não não não

Paliativos

Sem solução?

Ainda é outono

Ele quer verão

Ela quer inverno.

Eu quero cores

Não flores

Nem as delicias do Inferno.

Não, não

Meus amores

Nada aqui parece eterno


Nessa egotrip

Somos efêmeros atores

Autores e diretores


E mesmo com o roteiro na mão

Nem tudo se resume

À luz, câmera e ação.

Não.

Nem tudo é de mentira aqui

Nem tudo é tão real

Nem tudo é negação.

Incendiemos então

Tudo e todos

Que nos tornemos cinzas


Se não for em vão.

sábado, 21 de março de 2009

Equinocio

Qual sera o peso desses sentimentos que me pressionam pra sair

Que não se aguentam dentro de mim

Que me apertam a garganta como grito preso

Que partem do misto de impotência

Vontade imobilizada que acaba em automenosprezo

O que de fato então mereço?

Se não me sinto leve, nem muito livre

Apenas solto.

Se me sinto menos

Como posso ser mais?

Que variável estranha e insensata

Nos mantém distantes

Desprotegidos e fora

De nosso próprio alcance

Em pleno equinócio

Já não me importam as horas

Se sem o que me falta

São todas corroídas pelo ócio

São rascunhos toscos que sempre jogo fora.


Agora eu ando contra o vento

Enquanto as folhas morrem

As crianças correm inocentes

Enquanto as flores morrem

E os velhos dormem tementes

O vento desolado sopra versos pra mim

Como se fossem sementes férteis

Como se isso não fosse ter fim.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ilusionismos.

lá fora choveu o dia todo, e talvez a cidade 
esteja abaixo da linha da lama
aguaceiro que não lava a alma
o céu fechado para balanço
não recebe preces
apenas as derrama

sem calma.

aqui dentro, um pouco mais seco
algo meio calmaria
meio tormento
sempre fui todo sentimento
será uma pena
será que valeria? 

hei de ficar atento.

e quando a primeira chance passar
agarrá-la, pedir que me leve
já não posso esperar
os ponteiros jamais perdoam
quem se ilude
quem se pensa imune

quem se acha doente demais pra dançar.

eu quero correr
pode ser para o mar
para as montanhas
pra uma clareira de luar
prateada e quente quanto
corpos que ardem na eternidade do momento

que nem a morte os poderia tocar.

minhas fantasias me carregam
e me despem de mim
que doce e amargo privilegio
enchem-me de ilusões
para livrar-me do tédio
como se houvessem inventado poesia

para poetas doentes, como se fosse um remedio.

Summertime.

Tenho uma séria queda pela vida
Em múltiplos sentidos e
Matizes
Contornos
Contrastes

Sorrisos
Perspicácia
Inteligência
Tudo isso me atrai muito
Me faz querer correr um pouco de risco

A velha sensação de estar vivo
Você se lembra?

Sou dionisíaco e amante da noite e um pouco prolixo
Ultimamente, contemplativo, praticamente casto
Cumulus-Nimbus
Café e
Um silêncio devasso

Um pequeno caos
O meu Dharma obscuro, absurdo
Meu centro gravitacional por vezes se inverte
E vejo velhas coisas com novos olhos

Verdes
Roxos
Castanhos
Diferentes cores, nuances, texturas
Pensamentos antigos refletindo em ações futuras

Como se pudesse planejar
Como se fosse possível entender

Abstraio
Confundo
Questiono
Conquisto coisas sem querer às vezes
E perco outras por quere-las demais

O grande senso de humor do Universo
No budismo, samsara
Pra igreja, castigo
Pros pagãos, a natureza
Eu, costumo chamar de ironia

Enquanto isso, segue o grande baile da existência
Em essência, nossa eterna busca não passa de um acorde
Que vibra e sacode e se propaga, contribuindo
Para que tudo mantenha um certo ritmo
Algum compasso e sincronia, uma big band

Um big bang, o grande orgasmo divino
Devaneios displicentes
Obscenos
Incertos como o Destino
Certeiros como bala perdida

Sinceros como um tiro, esses rabiscos
É certo que menos destrutivos
Talvez mais doloridos
E menos tristes que aquele velho blues
Sobre o céu de verão

Branco e cinza
Sem Sol
Sem azul
Apenas luz, claridade fosca
Ofuscante

Sinto aromas distantes
No tempo
No espaço
Bem perto, me despertam
Lembram maresia e morangos

Tempestade iminente

Folhas verdes ao chão

'There ain't no cure, baby

For the summertime blues'.


*mais um dos velhos, mais um fim de verão.