Eu me sento e observo os hangares
e os aviões e a névoa fria que nos envolve
tudo parece distante
fora de alcance, minha vista perde o foco
helicópteros, prédios ao longe
minha alma vaga acima das antenas
mas eu não vejo o horizonte
estou cego e pasmo diante desse vazio sonolento
que abraça a cidade
e bocejo soltando fumaça
na tentativa de despertar em mim
o que está adormecido dentro de todos nós
e mesmo que dessa vida de tentar dar corda
aos nossos sonhos
pouca gente acorde pra perceber
como somos de fato estranhos
eternamente buscando no outro
algum conforto
algum meio de atingir aquela felicidade desconhecida
e sem nome
da qual sempre temos apenas relances
o brilho nos olhos de quem a gente ama
num nascer do sol preguiçoso sobre a cama
comidinha da mãe ao chegar cansado
e quase morto de fome
e tantas outras coisas que passam despercebido
enquanto corremos feito loucos
atrás de dinheiro (meios) ou
de algum sentido (fins)
mas os ponteiros giram e giram
e seu tictac contínuo certos dias
soam feito estampidos
talvez Cronus metralhando
seus próprios filhos oprimidos
que caem feito grãos de areia
em sua ampulheta, destino final
do Destino
e em silêncio eu peço ao Universo
que abra meus caminhos
e me livre de todo desatino
que os homens são capazes
do egoísmo, do flagelo e
todos esses sentimentos fugazes
então mesmo que essa pequena oração
sirva somente a mim como lembrete
ou assistente de vontade
abstração da minha dor nas costas
ou cápsula porta-saudades
que seja
ou quem sabe essas palavras subam feito balão
e caiam num outro canto da cidade
eu iria amar incendiar o coração de alguém
que por ventura captasse essa mensagem
eu não acredito no impossível
talvez vocês não devessem também...
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terça-feira, 17 de julho de 2012
terça-feira, 26 de abril de 2011
e O Silêncio
fechado em meu silêncio
eu abstraio o estrondo exterior
e apenas espero o tempo correr
e ele escorre
eu olho
tento sentir o mínimo
meu ânima sem muito
ânimo
em estado de espera
nem se desespera
respira, acalma
a alma, inspira
a calma (ainda não)
acaba.
As Folhas
uma menina muito branca
caminha sob um céu azul
observando as folhas secas
antes muito verdes
caírem no chão cinza.
ela nem se pergunta porque.
O Vento
o vento do outono novamente me arrepia a nuca
ele sempre traz um pouco da velha desolação
eu me sinto sempre desprotegido quando ele sopra
e me envolve
me faz querer ser envolvido
devolvido
ao lugar de onde nunca deveria ter saído.
quinta-feira, 24 de março de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
King Of The Rodeo
He's so the purity, a shaven and a mourning,
And standing on a pigeon toe, in his disarray
Straight in the picture pose,
He's coming around to meet you
And screaming like a battle cry, its more if i stay
Me and your cold, driving in the snow,
Let the good times roll, let the good times roll
Cowgirl king of the rodeo, let the good times roll,
Let the good times roll
How dare you come to me like withnail for a favor,
Hold on not my fairy tale you're trying to start
Take off your overcoat, you're staying for the weekend,
And swaying like a smokey grey, a drink in the park
Good time to roll on.
kings of leon
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Explicações (uma tentativa)
Eu tenho tentado sorrir, mas dói. Como se essa licença me tivesse sido tirada, como se o rasgo na minha cara fosse costurado, como se parecesse algo sempre simulado. Nunca os cigarros queimaram tão rápido e ansiosos por evaporarem me consumindo, nunca os consumi com tanto asco, me sentindo obrigado a ser tragado pela fumaça que finge me aliviar e me levar com ela pra longe, para o cume do ar.
Eu tenho tentado viver em paz, sem escolher um lado, sem ignorar meu fardo, sem esquecer meu passado mesmo sendo tentado. Não consigo mais ser tão dissimulado. Ser eu no palco e fora dele um ator. Ser contaminado pela descrença alheia, ser só mais um idealista a afundar nessa coisa movediça, nessa areia composta dos restos dos sonhos de gente que desiste. Eu insisto. Eu existo, acho.
Eu tenho sido incapaz de amar mais. Tenho o que veio antes e o que vem depois mas não sei o que fazer agora nesse limbo de existência, o meu eu. Eu esse que não aprende a se prender, continuamente se desprende com excelência, deixando coisas pendentes, caindo eternamente feito estrela cadente com um brilho fosco de abajur antigo de um tempo decadente.
Esse eu deveria ser outro. Deveria ser o que os outros veem. O holograma. A pintura. O intelecto, o charme, os olhos, a cultura, o som, o beijo, o abraço, o estilo, a pica dura. Mas não. Esse eu é outro. Esse aqui é mais real, mais perdido. Esse aqui tem dúvidas e dentes a menos. Tem a doença de sempre querer uma cura.
Onde está a cura afinal?
Pra minha EQM constante, qual a solução pra esse eu que não consegue deixar de ser uma tristeza ambulante, um pedinte mendicante que não consegue dar amor? Eu não posso fingir felicidade, se tudo que sinto é dor, não posso despertar estando chapado nesse torpor.
Sinto que não posso esperar a salvação chegar, nem a loucura passar e muito menos minha vida naufragar. Sinto que não posso me entregar a algo que me consome, que me engole e me vomita todo dia e nas noites me mastiga devagar.
Sinto que disse e disse e disse, sem conseguir explicar. Outra vez falhei.
Sinto que sendo inútil então dizer, talvez seja melhor calar.
Calei.
Eu tenho tentado viver em paz, sem escolher um lado, sem ignorar meu fardo, sem esquecer meu passado mesmo sendo tentado. Não consigo mais ser tão dissimulado. Ser eu no palco e fora dele um ator. Ser contaminado pela descrença alheia, ser só mais um idealista a afundar nessa coisa movediça, nessa areia composta dos restos dos sonhos de gente que desiste. Eu insisto. Eu existo, acho.
Eu tenho sido incapaz de amar mais. Tenho o que veio antes e o que vem depois mas não sei o que fazer agora nesse limbo de existência, o meu eu. Eu esse que não aprende a se prender, continuamente se desprende com excelência, deixando coisas pendentes, caindo eternamente feito estrela cadente com um brilho fosco de abajur antigo de um tempo decadente.
Esse eu deveria ser outro. Deveria ser o que os outros veem. O holograma. A pintura. O intelecto, o charme, os olhos, a cultura, o som, o beijo, o abraço, o estilo, a pica dura. Mas não. Esse eu é outro. Esse aqui é mais real, mais perdido. Esse aqui tem dúvidas e dentes a menos. Tem a doença de sempre querer uma cura.
Onde está a cura afinal?
Pra minha EQM constante, qual a solução pra esse eu que não consegue deixar de ser uma tristeza ambulante, um pedinte mendicante que não consegue dar amor? Eu não posso fingir felicidade, se tudo que sinto é dor, não posso despertar estando chapado nesse torpor.
Sinto que não posso esperar a salvação chegar, nem a loucura passar e muito menos minha vida naufragar. Sinto que não posso me entregar a algo que me consome, que me engole e me vomita todo dia e nas noites me mastiga devagar.
Sinto que disse e disse e disse, sem conseguir explicar. Outra vez falhei.
Sinto que sendo inútil então dizer, talvez seja melhor calar.
Calei.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Tardio
nesses dias de tédio sentimental, tudo que eu queria era ler algo feito pra mim e escrever pra alguém verdades absolutas sobre sentimentos aterradores que te pegam numa madrugada qualquer quando você já não tem mais ninguém pra apelar ou se apegar, quando parece que o mundo vai simplesmente acabar se ninguém disser o que deve ser dito ou fazer o que devia ser feito, mas eu penso oh deus onde eu estive perdido esse tempo todo, ninguém é mais como antes e a culpa deve ser toda minha (...)
*extraído de um comentário feito por mim em um blog abandonado.
domingo, 15 de agosto de 2010
eu teria escrito isso se
Torna o meu leito, Colombina!
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volúpia dos meus abraços.
Os atletas poderão dar-te
O amor próximo das sevícias...
Só eu possuo a ingênua arte
Das indefiníveis carícias...
Meus magros dedos dissolutos
Conhecem todos os afagos
Para os teus olhos sempre enxutos
Mudar em dois brumosos lagos...
Quando em êxtase os olhos viro,
Ah se pudesses, fútil presa,
Sentir na dor do meu suspiro
A minha infinita tristeza!...
Insensato aquele que busca
O amor na fúria dionisíaca!
Por mim desamo a posse brusca:
A volúpia é cisma elegíaca...
A volúpia é cisma que esconde
Abismos de melancolia...
Flor de tristes pântanos onde
Mais que a morte a vida é sombria...
Minh'alma lírica de amante
Despedaçada de soluços,
Minh'alma ingênua, extravagante,
Aspira a desoras de bruços.
Não às alegrias impuras,
Mas a aquelas rosas simbólicas
De vossas ardentes ternuras,
Grandes místicas melancólicas!...
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volúpia dos meus abraços.
Os atletas poderão dar-te
O amor próximo das sevícias...
Só eu possuo a ingênua arte
Das indefiníveis carícias...
Meus magros dedos dissolutos
Conhecem todos os afagos
Para os teus olhos sempre enxutos
Mudar em dois brumosos lagos...
Quando em êxtase os olhos viro,
Ah se pudesses, fútil presa,
Sentir na dor do meu suspiro
A minha infinita tristeza!...
Insensato aquele que busca
O amor na fúria dionisíaca!
Por mim desamo a posse brusca:
A volúpia é cisma elegíaca...
A volúpia é cisma que esconde
Abismos de melancolia...
Flor de tristes pântanos onde
Mais que a morte a vida é sombria...
Minh'alma lírica de amante
Despedaçada de soluços,
Minh'alma ingênua, extravagante,
Aspira a desoras de bruços.
Não às alegrias impuras,
Mas a aquelas rosas simbólicas
De vossas ardentes ternuras,
Grandes místicas melancólicas!...
do grande manuel bandeira - Pierrot Místico
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
dorflex, i love you so
Desperto por volta das oito da manhã
faz um dia lindo de primavera lá fora
mas no momento isso não importa
me levanto desnorteado e rumo à cozinha
uma dor lancinante percorre meu rosto
como se houvesse uma faca cravada em meu
maxilar, mas não há nada
eu abro o armário e minhas mãos trêmulas
reviram vasilhas e taplewares em busca
de analgésicos
encontro, engulo um que desliza junto
com um pouco do café de ontem
acendo um cigarro enquanto ando em
direção ao espelho, me olho
sinto medo e nojo e raiva e dor
ao notar minha face direita inchada
recheada pelo pus entumescido
inflamada
e pulsando, pulsando
pulsando.
Ando de um lado a outro sem parar
a vontade real é de ver tudo foder
quebrar, estremecer e sangrar
o instinto é o de gritar, espremer
arrancar, mas nada faço
só ando e penso penso penso
que a culpa é toda minha e isso me deixa pior
não poder culpar ninguém pela minha
degradação. Fico tenso. Outro analgésico
outro cigarro, evito o espelho porque
se eu olho dói mais além.
Ligo pra minha dentista, preciso vê-la urgente
ela marca comigo pras onze
eu fico esperando a hora passar
ela passa doendo, eu saio
chego no consultório mais monstro que gente.
Ela é bonita e simpática e me olha serena
não se importa que eu pareça o Fofão
enquanto diz que vai me apertar até
que todo o mal desapareça e eu consinto
ela falando com aquele sorriso
não parece nada mal, não
me sento em sua cadeira reclinável
a luz branca apontada pra mim
e ela começa, com sua seringa cheia
daquele líquido adorável
me encharca, anestesiado eu me sinto bem
então ela me aperta e aperta forte
eu fecho os olhos e espero ela terminar
e ela termina e eu pergunto
“foi bom pra você”?
Ela diz, “o quê”?
Eu digo, “nada”
então ela me mostra um copo de plástico
cheio de um liquido amarelo escuro
espesso
ri e pergunta se estou servido
mas eu declino, agradeço e me retiro
no corredor observo meu reflexo
que incrivelmente se parece comigo
me sinto um tolo feliz e mais leve
meu rosto formiga de um jeito engraçado
acendo um cigarro e caminho por aí
ninguém parece se assustar
não há sobressalto
apenas uma brisa leve
de um lindo dia de primavera
eu, e meu sorriso torto
anestesiado.
faz um dia lindo de primavera lá fora
mas no momento isso não importa
me levanto desnorteado e rumo à cozinha
uma dor lancinante percorre meu rosto
como se houvesse uma faca cravada em meu
maxilar, mas não há nada
eu abro o armário e minhas mãos trêmulas
reviram vasilhas e taplewares em busca
de analgésicos
encontro, engulo um que desliza junto
com um pouco do café de ontem
acendo um cigarro enquanto ando em
direção ao espelho, me olho
sinto medo e nojo e raiva e dor
ao notar minha face direita inchada
recheada pelo pus entumescido
inflamada
e pulsando, pulsando
pulsando.
Ando de um lado a outro sem parar
a vontade real é de ver tudo foder
quebrar, estremecer e sangrar
o instinto é o de gritar, espremer
arrancar, mas nada faço
só ando e penso penso penso
que a culpa é toda minha e isso me deixa pior
não poder culpar ninguém pela minha
degradação. Fico tenso. Outro analgésico
outro cigarro, evito o espelho porque
se eu olho dói mais além.
Ligo pra minha dentista, preciso vê-la urgente
ela marca comigo pras onze
eu fico esperando a hora passar
ela passa doendo, eu saio
chego no consultório mais monstro que gente.
Ela é bonita e simpática e me olha serena
não se importa que eu pareça o Fofão
enquanto diz que vai me apertar até
que todo o mal desapareça e eu consinto
ela falando com aquele sorriso
não parece nada mal, não
me sento em sua cadeira reclinável
a luz branca apontada pra mim
e ela começa, com sua seringa cheia
daquele líquido adorável
me encharca, anestesiado eu me sinto bem
então ela me aperta e aperta forte
eu fecho os olhos e espero ela terminar
e ela termina e eu pergunto
“foi bom pra você”?
Ela diz, “o quê”?
Eu digo, “nada”
então ela me mostra um copo de plástico
cheio de um liquido amarelo escuro
espesso
ri e pergunta se estou servido
mas eu declino, agradeço e me retiro
no corredor observo meu reflexo
que incrivelmente se parece comigo
me sinto um tolo feliz e mais leve
meu rosto formiga de um jeito engraçado
acendo um cigarro e caminho por aí
ninguém parece se assustar
não há sobressalto
apenas uma brisa leve
de um lindo dia de primavera
eu, e meu sorriso torto
anestesiado.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Down.
Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Outra vez vou te cantar, vou te gritar
Te rebocar do bar
E as paredes do meu quarto vão assistir comigo
À versão nova de uma velha história
E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Outra vez vou te esquecer
Pois nestas horas pega mal sofrer
Da privada eu vou dar com a minha cara
De babaca pintada no espelho
E me lembrar, sorrindo, que o banheiro
É a igreja de todos os bêbados
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Down... down
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Outra vez vou te cantar, vou te gritar
Te rebocar do bar
E as paredes do meu quarto vão assistir comigo
À versão nova de uma velha história
E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Outra vez vou te esquecer
Pois nestas horas pega mal sofrer
Da privada eu vou dar com a minha cara
De babaca pintada no espelho
E me lembrar, sorrindo, que o banheiro
É a igreja de todos os bêbados
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Down... down
é...cazuza.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Nós e o Vazio
Nesse lugar já desgastado
Cheio de rostos retorcidos pelo tédio e pela mediocridade
Um cenário repleto de improbabilidade
Mas existe uma variável rara, a mais bela e luminosa excessão
Nesse imenso baile de máscaras, de movimentos ridiculamente repetitivos
Dançamos fora do compasso, criamos novos ritmos, e risos e choros e gritos
Algo só nosso.
Um extâse vezes doze.
Cheio de rostos retorcidos pelo tédio e pela mediocridade
Um cenário repleto de improbabilidade
Mas existe uma variável rara, a mais bela e luminosa excessão
Nesse imenso baile de máscaras, de movimentos ridiculamente repetitivos
Dançamos fora do compasso, criamos novos ritmos, e risos e choros e gritos
Algo só nosso.
Um extâse vezes doze.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Ela e Ele
Era uma noite de sexta-feira, Ela havia saído de casa apressada, à procura de algo ou alguém, não sabia ao certo, andava tão confusa ultimamente. Sabia apenas que precisava dissipar aquela nuvem obscura de dúvidas e vontades que pairava sobre sua cabeça, e enquanto pensava sobre essas coisas Ele apareceu pedindo fogo, Ela ofereceu seu isqueiro e Ele o agarrou um pouco trêmulo e acendeu um cigarro enquanto Ela o observava estudando sua expressão que parecia entediada e levemente desesperada também.
Ele sentou-se em frente a uma loja fechada e recostou-se na porta de ferro displicentemente, devolveu o isqueiro e balbuciou um "obrigado" quase inaudível. Ela sentou-se ao seu lado, Ele não pareceu surpreso, "deve estar perdida também", pensou, e enquanto Ela começava a puxar assunto, seu olhar a transpassava e a todo o resto, não que procurasse de fato algo, ou alguém, mas Ela seguia lhe falando sobre pessoas que Ele nem conhecia, então começou a contagem regressiva que sempre fazia, "depois desse cigarro eu vou embora", pensou, ignorando que era o terceiro cigarro que fumava com esse intuito.
Na verdade, Ela havia ensaiado coisas para dizer a Ele quando houvesse coragem e oportunidade, e Ela contava apenas com o segundo fator e não estava seguindo o script, estava perdendo a mão da cena; Ele ouvia o que Ela dizia, às vezes respondia com monossílabas ou meio evasivo, tragando o cigarro e soprando fumaça na brasa, que a essa hora alcançava o filtro.
Quando Ele deu o último trago, Ela sabia que o próximo passo seria Ele ir embora, mas antes que Ele jogasse fora seu cigarro, Ela sacou um e segurou a mão dele, deslizando até seus dedos, pegou a bituca ainda viva e a encostou na ponta do cigarro apagado, acendendo-o em um trago longo, soprou a fumaça na direção do rosto dele, por querer.
Ele abanou o ar e franzindo o cenho, perguntou meio irritado, "você quer me beijar, ou só me matar mais rápido mesmo?", Ela riu e passou à Ele o cigarro, "só queria um trago!" disse Ela, com a sensação de ter acertado no alvo.
Agora Ela reclamava de algum professor, e Ele parecia agora mais interessado, se não no assunto, talvez nas poses coreografadas que Ela usava sem dó; mexia no cabelo e sorria bonito e depois mexia nos botões da blusinha, como se dissesse "olhe pros meu peitos, não são lindos?", e bem, na realidade eram, então Ele resolveu adiar sua partida mais alguns cigarros.
Ele não estava elétrico como costumava ser, mas mantinha aquele charme sombrio, com olhos de mistério que deixavam a todos em suspense esperando sua próxima frase que nunca era óbvia, e podia ser profunda, naquele seu jeito de disfarçar melancolia com sarcasmo, ou simples e terrívelmente engraçada, nunca se sabia, e Ela sabia apenas que queria toda sua atenção para si, até que não lhe restasse escapatória a não ser para o lado dela.
Ele estava vulnerável. O amor de sua vida havia deixado claro, "não podiam ficar juntos", e depois de lhe pedir que "se cuidasse", simplesmente sumiu numa noite de lua cheia, deixando-o desolado e perplexo, seus sentidos abandonando-o, tornando-o cego, surdo, mudo e insensível; lembrou-se, naquela noite alguém tirou o chão debaixo de seus pés, atirando-o fundo nas trevas patéticas do desamor e do abandono, naquela noite tristemente linda.
Despertou do devaneio sorumbático notando a presença de outra garota, que insistia para que Ela a acompanhasse a algum lugar, Ela somente olhava a amiga que não a ouvia gritando por dentro "não! não!", então olhou para Ele, que fingia estar distraído e voltou a olhar para a amiga que se conformou e foi sozinha, depois de pedir que a esperasse voltar.
Essa foi a deixa para que Ele jogasse fora seu cigarro como se jogasse seu passado recente e infeliz junto, então olhando-a decidido, perguntou já de pé "é agora que a gente some, ou você só vai me desejar boa noite?", e Ela agora tinha uma expressão de surpresa e alegria reais, e depois de um instante de dúvida Ela disse "pra onde?", e Ele reagiu lhe dando a mão para que se levantasse, e dizendo que sabia de um lugar.
Andaram rápido e subiram uma rua, afastando-se do centro da cidade, Ele a puxou pelo braço para dentro de uma espécie de construção abandonada, onde alcançaram uma varanda grande no alto, estava apropriadamente escuro, Ela estava excitada e seu coração bateu forte como nunca quando Ele a encostou na parede e beijou-a frenéticamente os lábios, depois percorrendo seu pescoço e nuca, ao mesmo tempo em que abria sua blusa e acariciava-lhe os seios e tudo era êxtase e os dois ousavam e improvisavam movimentos e entrelaçavam-se cheios de ânsia, e logo estavam no chão sob um teto magnífico de estrelas, num frenesi de mãos e línguas, palavras soltas e unhas...
Ele rolou e logo estava por cima dela, beijou-lhe a barriga lisa, deslizando para baixo, alcançou e abriu-lhe o botão de seu jeans com os dentes, e quando tateou e encontrou o zíper, sentiu a mão dela sobre a sua e a olhou nos olhos para saber o que havia de errado.
Ela tinha um olhar entorpecido e quase suplicante, mas olhava-o com vontade quando disse "você só precisa dizer duas palavras", e sustentou aquele olhar de expectativa enquanto esperava uma resposta que pairava naquele ar na forma de silêncio absurdo e terrível.
Ele a olhou como se não houvesse entendido direito, e naquelas frações de segundos seguintes, Ele pensou em simplesmente mentir e aproveitar o momento, talvez fosse o que Ela queria que Ele fizesse; dissesse o que Ela queria ouvir, mas isso significava arcar com o peso daquelas palavras depois. Pensou também em algo enormemente cretino pra dizer em duas palavras, algo que faria Bukowski corar, mas também não disse.
Ela o fitava, e por um instante pareceu que Ele iria sorrir e dizer, mas o que parecia um sorriso de canto, retorceu-se e transmutou-se em algo que parecia confusão, depois desapontamento. Ele se levantou, acendeu um cigarro e olhou para as luzes da cidade, Ela encostou a cabeça no chão e apertou os olhos com as mãos, sentindo-se estranha.
Ele apagou o cigarro na metade e disse que tinha de ir embora. Ela disse "eu também", com a voz meio que falhando.
Desceram juntos e foram para lados contrários.
Ela chegou em casa, tomou um banho, chorou e dormiu convencida de que Ele valia a pena.
Ele chegou e foi direto dormir, decidido a deixar tudo como estava.
Ele sentou-se em frente a uma loja fechada e recostou-se na porta de ferro displicentemente, devolveu o isqueiro e balbuciou um "obrigado" quase inaudível. Ela sentou-se ao seu lado, Ele não pareceu surpreso, "deve estar perdida também", pensou, e enquanto Ela começava a puxar assunto, seu olhar a transpassava e a todo o resto, não que procurasse de fato algo, ou alguém, mas Ela seguia lhe falando sobre pessoas que Ele nem conhecia, então começou a contagem regressiva que sempre fazia, "depois desse cigarro eu vou embora", pensou, ignorando que era o terceiro cigarro que fumava com esse intuito.
Na verdade, Ela havia ensaiado coisas para dizer a Ele quando houvesse coragem e oportunidade, e Ela contava apenas com o segundo fator e não estava seguindo o script, estava perdendo a mão da cena; Ele ouvia o que Ela dizia, às vezes respondia com monossílabas ou meio evasivo, tragando o cigarro e soprando fumaça na brasa, que a essa hora alcançava o filtro.
Quando Ele deu o último trago, Ela sabia que o próximo passo seria Ele ir embora, mas antes que Ele jogasse fora seu cigarro, Ela sacou um e segurou a mão dele, deslizando até seus dedos, pegou a bituca ainda viva e a encostou na ponta do cigarro apagado, acendendo-o em um trago longo, soprou a fumaça na direção do rosto dele, por querer.
Ele abanou o ar e franzindo o cenho, perguntou meio irritado, "você quer me beijar, ou só me matar mais rápido mesmo?", Ela riu e passou à Ele o cigarro, "só queria um trago!" disse Ela, com a sensação de ter acertado no alvo.
Agora Ela reclamava de algum professor, e Ele parecia agora mais interessado, se não no assunto, talvez nas poses coreografadas que Ela usava sem dó; mexia no cabelo e sorria bonito e depois mexia nos botões da blusinha, como se dissesse "olhe pros meu peitos, não são lindos?", e bem, na realidade eram, então Ele resolveu adiar sua partida mais alguns cigarros.
Ele não estava elétrico como costumava ser, mas mantinha aquele charme sombrio, com olhos de mistério que deixavam a todos em suspense esperando sua próxima frase que nunca era óbvia, e podia ser profunda, naquele seu jeito de disfarçar melancolia com sarcasmo, ou simples e terrívelmente engraçada, nunca se sabia, e Ela sabia apenas que queria toda sua atenção para si, até que não lhe restasse escapatória a não ser para o lado dela.
Ele estava vulnerável. O amor de sua vida havia deixado claro, "não podiam ficar juntos", e depois de lhe pedir que "se cuidasse", simplesmente sumiu numa noite de lua cheia, deixando-o desolado e perplexo, seus sentidos abandonando-o, tornando-o cego, surdo, mudo e insensível; lembrou-se, naquela noite alguém tirou o chão debaixo de seus pés, atirando-o fundo nas trevas patéticas do desamor e do abandono, naquela noite tristemente linda.
Despertou do devaneio sorumbático notando a presença de outra garota, que insistia para que Ela a acompanhasse a algum lugar, Ela somente olhava a amiga que não a ouvia gritando por dentro "não! não!", então olhou para Ele, que fingia estar distraído e voltou a olhar para a amiga que se conformou e foi sozinha, depois de pedir que a esperasse voltar.
Essa foi a deixa para que Ele jogasse fora seu cigarro como se jogasse seu passado recente e infeliz junto, então olhando-a decidido, perguntou já de pé "é agora que a gente some, ou você só vai me desejar boa noite?", e Ela agora tinha uma expressão de surpresa e alegria reais, e depois de um instante de dúvida Ela disse "pra onde?", e Ele reagiu lhe dando a mão para que se levantasse, e dizendo que sabia de um lugar.
Andaram rápido e subiram uma rua, afastando-se do centro da cidade, Ele a puxou pelo braço para dentro de uma espécie de construção abandonada, onde alcançaram uma varanda grande no alto, estava apropriadamente escuro, Ela estava excitada e seu coração bateu forte como nunca quando Ele a encostou na parede e beijou-a frenéticamente os lábios, depois percorrendo seu pescoço e nuca, ao mesmo tempo em que abria sua blusa e acariciava-lhe os seios e tudo era êxtase e os dois ousavam e improvisavam movimentos e entrelaçavam-se cheios de ânsia, e logo estavam no chão sob um teto magnífico de estrelas, num frenesi de mãos e línguas, palavras soltas e unhas...
Ele rolou e logo estava por cima dela, beijou-lhe a barriga lisa, deslizando para baixo, alcançou e abriu-lhe o botão de seu jeans com os dentes, e quando tateou e encontrou o zíper, sentiu a mão dela sobre a sua e a olhou nos olhos para saber o que havia de errado.
Ela tinha um olhar entorpecido e quase suplicante, mas olhava-o com vontade quando disse "você só precisa dizer duas palavras", e sustentou aquele olhar de expectativa enquanto esperava uma resposta que pairava naquele ar na forma de silêncio absurdo e terrível.
Ele a olhou como se não houvesse entendido direito, e naquelas frações de segundos seguintes, Ele pensou em simplesmente mentir e aproveitar o momento, talvez fosse o que Ela queria que Ele fizesse; dissesse o que Ela queria ouvir, mas isso significava arcar com o peso daquelas palavras depois. Pensou também em algo enormemente cretino pra dizer em duas palavras, algo que faria Bukowski corar, mas também não disse.
Ela o fitava, e por um instante pareceu que Ele iria sorrir e dizer, mas o que parecia um sorriso de canto, retorceu-se e transmutou-se em algo que parecia confusão, depois desapontamento. Ele se levantou, acendeu um cigarro e olhou para as luzes da cidade, Ela encostou a cabeça no chão e apertou os olhos com as mãos, sentindo-se estranha.
Ele apagou o cigarro na metade e disse que tinha de ir embora. Ela disse "eu também", com a voz meio que falhando.
Desceram juntos e foram para lados contrários.
Ela chegou em casa, tomou um banho, chorou e dormiu convencida de que Ele valia a pena.
Ele chegou e foi direto dormir, decidido a deixar tudo como estava.
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