quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Enquanto eu andar distraído...


Alguém me disse outro dia, que quando você está distraído é que as melhores coisas acontecem. A expectativa geralmente é o caminho mais curto para a decepção, e nos faz agir feito idiotas na maioria das vezes. Experiência própria, também, enfim.
Aquela sexta-feira havia começado escrota, céu cinza cheio de nuvens de chumbo, aquele 'chove-não-molha', o tipo de clima que dá vontade de se enfiar num moleton, ligar um The Smiths na vitrola e não sair de casa pra nada. Eu estava tipo aquelas gordinhas depressivas de seriado americano, só que ao invés do sorvete eu comia cigarros. Níveis de misantropia no alerta vermelho, eu não queria ver ninguém. Tinha passado meus últimos 5 dias trancafiado à base de café, trabalhando no meu segundo livro (enquanto o primeiro está nas mãos dos meus editores que a cada 15 dias me escrevem com uma nova desculpa para o fato dele ainda estar engavetado), descontando toda minha raiva e tédio, mas no final das contas eu mesmo acabei descartando esses textos porque na verdade esse livro falaria de AMOR, e quando eu fui ler o que tinha escrito percebi que era um amontoado de coisas tão TRISTES que fariam alguns aviões caírem e a primavera morrer de desgosto.
Deixei para lá. Afinal, minha vida não andava tão ruim assim. Tentei ver as coisas pelo lado positivo (aquela babaquice do copo meio cheio, saca?), morava de favor na casa de parentes, no bom e velho estilo parasita, não que tivesse orgulho disso, mas era a alternativa até que eu me ajeitasse. Rola uma espécie de piedade das pessoas quando você trabalha com arte. Te tratam meio como um doente, um viciado, sei lá, alguém que precisa de ajuda, e eles te ajudam, nas esperança que você uma hora PARE. Mas eu não estava disposto a parar tão cedo. Charles Bukowski se fodeu durante um bom tempo trabalhando nos correios até chegar lá. Rimbaud escreveu dos 15 aos 19 e revolucionou a poesia, depois entrou numas de caixeiro viajante e se mandou pra África onde trabalhou como mercenário até voltar pra morrer em Marseille. Não, eu não ia parar, pra tentar me encaixar em um mundo que eu não quero viver. Nas baias dos escritórios dentro daqueles lindos prédios espelhados. Nem fodendo que eu ia virar mais um palhaço-dentro-da-caixa, preferiria morrer como um escritor mal-sucedido e honesto do que como um multimilionário cheio de sangue e suor dos outros no meu Karma. Mas sinto que divago.
Ainda era sexta (escrota), ouvi tudo que tinha dos Smiths no PC, depois passei pra Radiohead e depois Joy Division e aí cheguei no fundo do poço, peguei impulso na mola e fui tomar um banho. Nada como um banho quente, ainda mais depois de dar uma tostada (já era hora do chá da tarde...), fiquei lá um tempo, deixando a água cair nas minhas costas e pensando em coisas do tipo "como e por que surgiu o Universo" ou "por que as mulheres vão em dupla ao banheiro" ou "por que quem tem o melhor som no carro tem o pior gosto pra música", e isso durou uns 20 minutos, mas depois eu de fato me lavei (isso durou uns 5 min.) e então terminei. - (Desculpe planeta, mesmo tendo alguma consciência eu ainda faço parte desse câncer) - E no fundo acho que a Terra um dia vai nos dar uma bela sacudida como um cachorro cheio de pulgas e estarão todos no mesmo barco seja você um bom menino 'sustentável' ou não. Mas me deixa feliz saber que eu e todos os cretinos e santos do Mundo faremos uma boa ação um dia servindo de adubo pra esse lugar lindo. Mas sinto que divago de novo.
Saí do banho, e ao passar pela sala em direção a área de serviço vi que havia uma nova mensagem na minha caixa de e-mail. Era do Bill, um velho amigo que parecia o Prince. Fashionista havia se formado há pouco tempo, numa das escolas mais tradicionais de Paris. Falava que tinha um trabalho pra mim, se podia encontrá-lo logo mais a noite no novo bar da moda da cidade. Odeio bares da moda. Mas assenti em encontrá-lo para uns drinks e saber sobre o trampo, apesar do meu estilo de vida simples, precisava levantar uma grana.
Finalmente, um pouco de ação, já era hora de sair da toca, ver o que acontecia lá fora. A chuva havia dado uma trégua e eu tinha pelo menos umas duas horas até o nosso encontro. Vesti uma calça jeans (eu tenho duas) rasgada, uma camiseta branca lisa (velha) e meus heróicos converse (surrados), além de uma jaqueta de couro que encontrei em um brechó por 10$, que apesar de ser feminina caía bem em mim, e decidi fazer um esquenta no Old Beer, um boteco mais underground onde geralmente colava uma galera interessante.
Cheguei lá e haviam apenas uma meia dúzia de gatos pingados, e Sal, dono do estabelecimento já chegou me cumprimentando com sua usual simpatia "Eae seu filhodaputa sumido, qual foi, tava doente é?" e eu, "Nem, saco cheio do mundo mesmo, desce ae um conhaque são joão da barra com mel e limão pra mim, antes que eu fique doente de verdade" (um drink medicinal que está na lista de coisas relevantes aprendidas em relacionamentos anteriores), e sem perder o fôlego ele emendou "Você ainda me deve aquelas duas cervejas da semana passada, seu patife", então eu saquei minhas últimas moedas e joguei pra ele "Cobra aí as brejas mas pendura o conhaque seu capitalista do Inferno" e ele pegou e riu e foi fazer minha dose enquanto eu esperava no balcão.
Nesse meio tempo chegaram umas garotas, entre elas, Marina, namorada de um amigo meu. Ela é a coisa mais linda e é uma pessoa muito doce também, veio e me abraçou, as meninas acenaram de longe e sentaram em uma mesa na porta, ela puxou um banco e sentou do meu lado. Sal trouxe o drink, caprichado como sempre "Tomaê cusão", agradeci e quando olhei de volta pra ela percebi que havia algo errado.
"Que foi coração?" e ela disse "Adivinha?" "Nem preciso, vocês brigaram de novo e pelo mesmo motivo" e ela apenas concordou com a cabeça, depois pediu vodka. Fiquei com pena dela. O que realmente acontecia era que o cara que ela amava tinha vergonha dela, por conta de boatos de que ela tinha sido puta no tempo em que morou na Espanha, e se negava a andar de mãos dadas e fazer aqueles programinhas de casal ao lado dela. Eu sabia exatamente como ela se sentia, porque tinha passado por algo parecido, uma ex minha havia me abandonado porque eu era um artista, se sentia constrangida quando perguntavam a ela o que eu fazia e ela dizia e eles perguntavam "e o que mais ele faz?" - enfim - putas e artistas são das classes mais subestimadas nessa sociedade que vivemos, mas na real ninguém sabia de fato se ela era mesmo e não percebiam que isso não tinha a menor importância. Talvez por isso ela se esforçasse tanto pra ser legal com os outros, mas mesmo assim tinha de conviver com comentários de gente imbecil.
Decidi mudar o rumo da prosa, perguntei sobre o trabalho dela, como andava, ela adora falar disso e acabou desencanando um pouco. Contei umas piadas toscas pra fazê-la rir, deu certo. Apesar da minha personalidade maníaco-depressiva, eu gosto de fazer pessoas sorrirem. "E a Isadora?" ela perguntou, "Já esqueci", "e a Melinda?" eu "Tá viva?" "e a Bárbara?" "Não deu certo", "Putz, e a Diva, vocês tinham tudo a ver", "Pois é Má, a gente tinha, haha" e ela caiu na risada.
Faltava meia hora pro meu encontro com Bill, era o tempo de atravessar a cidade, convidei as meninas, disseram que passariam por lá mais tarde, então me despedi, peguei uma via às margens do Centro, saquei uma ponta do maço de cigarros, acendi e caminhei calmamente. Um carro de polícia passou bem do meu lado atravessando a marola, eu acenei e eles acenaram de volta, não tinham tempo pra perder comigo.
Há uns 20 metros do Lab (esse é o nome do bar da moda, estilo futurista, uns drinks que parecem mais aquela poções da bruxa do Pica-Pau, coisa dos moderninhos) já dava pra sentir o burburinho. A playboyzada e as garotas deles, uns hipsters e a galera do eletrônico, vários públicos presentes aguardavam a apresentação da dupla 'Los Mariachis', a sensação do momento, os caras realmente mandam bem, além de serem super gente fina.
Passei distraído (lesado) pelas pessoas e entrei, circulei lá dentro e encontrei Bill sentado em um canto com outro cara. Ele me viu e se levantou "Heeeey Lou, querrido (ele agora tinha um sotaque francês que o deixava muito mais gay do que o habitual), Como você tá pálido, senta 'qui com moi". E ele fez um sinal e o outro cara desapareceu, então me sentei. "E essa barrrba de mamãe não me ama querrido, qu'est-ce que c'est? Tô brrincando, você tá lindo, só prrecisa de um bom banho de Sol" e eu levei na boa, era o bom e velho Bill e pedimos uns drinks e ele me contou que precisava de mim pra um editorial de moda e eu expliquei que não era uma porra de modelo, mas o que ele queria mesmo era alguém que pudesse 'vestir um personagem', era meio que um trabalho de ator então acabei aceitando. A produção começaria em alguns dias, deveria ficar atento ao meu e-mail. E foi aí, no ápice da minha distração, que Ela surgiu - pausa dramática, a cena congela e todos os sons desaparecem como se Deus tivesse apertado o Mute, tudo que ouço é meu coração batendo como se fosse um daqueles tambores japoneses só que na velocidade 5 - o Universo descongela e ela entra deslizando pelo salão, uma Deusa Nórdica, mais ou menos 1,80 com salto alto, cabelos dourados presos elegantemente, blusinha de renda branca, uma saia curta perolada, com ares vintage, meio anos 60, só que sexy, muito sexy. Foi até o balcão e pediu um drink, enquanto isso Bill que não gostava da coisa continuou falando coisas que eu realmente não ouvi e quando percebeu que eu não estava ali ficou um pouco puto e saiu dizendo que me ligava. Mas eu não ligava mais pra nada, só conseguia olhar pra ela, mas ela não olhava pra ninguém.
Juntei os cacos do meu coração, matei minha dose e fui até o balcão, no modo piloto automático. No meio do caminho lembrei que não tinha mais um puto no bolso. Olhei ao redor, a procura dos garçons, e vi nada mais nada menos do que o Chefia, um clássico mestre dos gorós; sempre tivemos uns esquemas e quando ele andou na pior eu dei uma força pra ele, e hoje ele era minha salvação. "E aí Chefia, beleza comandante?!! Desce uma aí pra mim!" e ele na hora foi lá e preparou uma bela caipirinha (ele era um especialista nessa arte) e me trouxe logo dois copos, um pra mim e um para a donzela que estava uns três bancos à direita, cochichou algo no ouvido dela, piscou pra mim (zap, ladrão!) e sumiu na copa. Ligeiro, o velho.
Dei de louco, fiquei mexendo meu drink com o canudo, e meu estômago gelou ao sentir o cheiro dela chegando mais perto. Sentou-se do meu lado. Dei um gole displicente e deixei o copo no balcão. "Hey" ela  falou, "muito obrigado, foi muito gentil" - sua voz era doce e me virei para olhá-la e por Deus do céu, era a coisa mais linda que eu já tinha visto com esses olhos queimados de Sol - traços finos e delicados e olhos tristes de quem provavelmente estava ali para esquecer alguém. "Não foi nada, apenas achei que você gostaria de algo mais clássico e com mais teor alcoólico do que essas gororobas que eles preparam aqui normalmente", ela deu um sorriso quase imperceptível e disse "Acertou em cheio, é meu preferido" - (Chefia gênio, pensei) - mas mantive minha melhor pokerface, qualquer demonstração poderia por tudo a perder. "Você parecia meio triste, foi só uma tentativa de alegrar seu dia" - disparei, me sentindo mais confiante (na verdade eu estava bêbado já) no que ela respondeu "Na verdade eu sou assim mesmo, mas com certeza você já alegrou" - e depois dessa foi inevitável, as borboletas mortas do meu estômago ressuscitaram feito fênix, e eu soube que estava perdido de qualquer jeito. "Você por acaso acredita em amor ao primeiro drink?" arrisquei todas as fichas - all in - ela pensou um pouco e o suspense quase me matou - e então ela riu e disse "Aiai, hoje em dia eu não desacredito de nada!" e a partir daí o papo fluiu para todos os lados e dali mesmo curtimos o show. Estava ficando tarde e as pessoas já estavam indo embora. Perguntei se ela gostaria de assistir ao nascer do Sol comigo em um lugar mais calmo e ela disse "Porque não?"
Alguém me disse outro dia, que quando você está distraído é que as melhores coisas acontecem. Talvez seja verdade. Veremos.






terça-feira, 17 de julho de 2012

Hangar

Eu me sento e observo os hangares
e os aviões e a névoa fria que nos envolve
tudo parece distante
fora de alcance, minha vista perde o foco
helicópteros, prédios ao longe
minha alma vaga acima das antenas
mas eu não vejo o horizonte
estou cego e pasmo diante desse vazio sonolento
que abraça a cidade
e bocejo soltando fumaça
na tentativa de despertar em mim
o que está adormecido dentro de todos nós
e mesmo que dessa vida de tentar dar corda
aos nossos sonhos
pouca gente acorde pra perceber
como somos de fato estranhos
eternamente buscando no outro
algum conforto
algum meio de atingir aquela felicidade desconhecida
e sem nome
da qual sempre temos apenas relances
o brilho nos olhos de quem a gente ama
num nascer do sol preguiçoso sobre a cama
comidinha da mãe ao chegar cansado
e quase morto de fome
e tantas outras coisas que passam despercebido
enquanto corremos feito loucos
atrás de dinheiro (meios) ou
de algum sentido (fins)
mas os ponteiros giram e giram
e seu tictac contínuo certos dias
soam feito estampidos
talvez Cronus metralhando
seus próprios filhos oprimidos
que caem feito grãos de areia
em sua ampulheta, destino final
do Destino
e em silêncio eu peço ao Universo
que abra meus caminhos
e me livre de todo desatino
que os homens são capazes
do egoísmo, do flagelo e
todos esses sentimentos fugazes
então mesmo que essa pequena oração
sirva somente a mim como lembrete
ou assistente de vontade
abstração da minha dor nas costas
ou cápsula porta-saudades
que seja
ou quem sabe essas palavras subam feito balão
e caiam num outro canto da cidade
eu iria amar incendiar o coração de alguém
que por ventura captasse essa mensagem
eu não acredito no impossível
talvez vocês não devessem também...



terça-feira, 5 de junho de 2012

Clandestino

Segunda-feira, dia mundial dos cozidos em todo o globo, eu acordo a tempo de vê-la caminhando pelo quarto só de calcinha e camiseta (ah, o Paraíso!), revirando os armários apressada a procura de roupas para sua caminhada matinal, eu não sei de onde ela tira tanto pique, e enquanto eu limpo o para-brisa da minha vista ela diz que eu tenho que ir, ela tem um tom um pouco seco, está chateada comigo por alguma idiotice da noite anterior, então eu pego minhas roupas e me visto mecanicamente, a minha cabeça pesa.
O pai dela está na cozinha lendo um jornal ou comendo uma torrada ou qualquer coisa do tipo, e ele não pode nem sonhar que existe um clandestino como eu dormindo pelado na casa dele – eu ainda tenho amor por essa vida – então ela sai na frente, mas no corredor ela se vira e diz um “te amo” ainda ressentido e eu só sorrio e digo “também te amo” e ela vai e para na porta da cozinha e puxa assunto com o velho dela, é minha deixa, eu deslizo, alcanço o quintal como um gato vagabundo, pulo o portão num movimento rápido e caio na rua como se nada tivesse acontecido.
Estou seco e trêmulo por um copo d'água. Maldito conhaque, mas agora é tarde, o Sol da manhã simplesmente queima minhas retinas, eu paro em uma padaria e tomo três copos d'agua e um café. Saio e acendo um cigarro com gosto de chorume, dou dois tragos e jogo fora. Ahh.
Continuo minha caminhada, só quero chegar em casa e morrer. Sigo pensando nela, naquela pele lisa, nos olhos e seu sorriso, naquelas curvas que Deus planejou pra me ver derrapar e perder o controle, garoto esperto, conseguiu. Odeio chateá-la, nunca é por mal, mas acaba acontecendo, porque no fundo eu sou só mais uma alma perdida nessa existência, e logo agora que eu encontrei alguém (re-encontrei?), o medo de que tudo isso vire nada antes que tudo aconteça me amortece.
Eu não sou idiota, eu sei que eu sou tudo que ela quer, mas não tenho o que ela precisa, ela acha que eu não posso mudar esse meu jeito, a minha forma de ver as coisas, de viver a vida de uma maneira despreocupada que soa como a mais pura irresponsabilidade aos olhos das pessoas e eu entendo, talvez eu não possa mudar isso – tão rápido – e isso meio que deixa as coisas numa corda bamba. O fato de eu não ter um puto no bolso nem pra uma porra de um sorvete às vezes, me rebaixa a categoria dos párias da sociedade, não importa se eu sou um ser humano de bom coração ou que eu escreva livros, ou limpe a casa pra minha mãe ou os meus planos de rodar o mundo, todos estão completamente céticos e isso é tão triste e desolado.
Eu chego em casa, tomo café e desmaio. Acordo atrasado, tomo um banho de gato, calço meus sapatos e saio correndo pra pegar o Ônibus Azul rumo à escola preparatória de homens alados, lá aprendemos a tecer asas e alçar voo, à caçar e construir abrigos, muito interessante, não era bem o que eu planejava, mas pode ser uma maneira de retribuir à minha mãe todo o cuidado que ela teve, até porque ela já está ficando cansada e meu tempo é curto e eu preciso dar um jeito de ajudá-la, então todos os dias eu pego o Ônibus, apertado entre as pessoas que tem de sair daqui se quiserem alguma sobrevida, já fiz até alguns amigos descartáveis, mas geralmente eu fico quieto a viagem toda, rabiscando ou lendo alguma coisa. Pensando que tudo isso não pode ser em vão, que o Tempo não pode me engolir antes que eu faça algo notável, que eu não posso parar enquanto eu não chegar lá onde eu quero, mesmo sabendo que quando eu chegar lá eu já vou querer chegar mais além e assim sucessivamente até que eu me torne obsoleto aqui nesse Mundo.
Tudo corre normalmente, até que é hora de voltar, mas começa a chover torrencialmente na Megapólis e eu não tenho guarda-chuva e nenhuma alma boa me oferece uma carona, então eu vou assim mesmo desviando das poças, mas no caminho rola uma trégua e eu chego no ponto com dinheiro a menos porque na correria caíram umas moedas, então eu acendo um cigarro e fumo pensando no xaveco que vou dar na cobradora pra ela me deixar ir embora, mas acaba que eu só jogo uns trocados na mão dela, e olho com aquela cara de fodido tipo “isso é tudo que eu tenho, põe na conta do chefe” e ela entende e me deixa passar.
Eu me sento na janela, observo os carros, penso sobre onde todos estão indo, ou sobre onde eles pensam que vão, e pra onde eu vou, se vai ter alguém esperando por mim, o clandestino, mas na viagem toda o telefone nem se mexe, as pessoas descem do Ônibus uma a uma, em silêncio, que nem chega perto do meu grande silêncio sorumbático vibrante que espera um bom motivo pra gritar e se desfazer, mas é só mais uma segunda como qualquer outra, e eu odeio segundas e no final das contas eu agradeço a Deus no banho – eu não vou à igreja - por ter sobrevivido a mais uma dessas e o Mundo segue seu giro, ela deve estar debaixo das cobertas quentinhas do seu quarto de onde eu quero fugir quantas vezes forem preciso, talvez pensando em mim, ou simplesmente à procura de uma receita de choconhaque na internet.
Então eu deito e apago e sonho com rockstars mortos há décadas.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Um trecho


[Extraído do meu ainda inédito "Crônicas do Telemarketing"] :

"Se o Inferno é a repetição, as ilhas de telemarketing flutuam no mar de lava do 8º círculo do Submundo.
Incubus e Succubus ofertando descontos em aparelhos celulares; criaturas grotescas repetindo mantras mal escritos que ecoam até o alto das antenas das cidades encantando pobres mortais sedentos por comunicação sem limites e novas tecnologias.
A cada aceite as criaturas gozam e seus olhos flamejam e mais um pedaço de alma fresca alimenta o sistema digestivo do Grande Sistema carnívoro que por sua vez caga sobre a superfície do planeta poluindo com seus dejetos os quatro cantos do globo."

(...)

terça-feira, 17 de abril de 2012

A voz

Me fala
me toca com sua alma
ao menos, fala
deixa sua voz entrar em mim
logo de uma vez
pra ver se esqueço todo o bem
que você me fez
e toda calma que você me traz
quem sabe você me pedindo
eu abstraia essa ausência de sentido
esqueça que me falta o toque
e uma peça chave desse quebra-cabeça
então fala
me convença que o vazio que eu deixei
te completa mais que a minha presença
talvez assim essa dor silenciosa
desapareça no ar junto com sua voz
e sua essência
suave, efêmera...

Uma réstia de sol



Eu quero de volta o brilho nos olhos
e o sorriso que me contamina
e que chega antes do toque que arrepia
o beijo que umedece e precede
o ar que sai dos seus pulmões e me aquece
a pele, o tato das mãos que agarram sem pretensão
de soltar
cheias de calor que enlouquece e preenche
isso sem falar dos cabelos que espalham
o cheiro fresco de banho pelo ar e
das omoplatas feito alças pra pegar ou
da curva que desce pelas tuas costas
para eu deslizar até suas pernas que me enrolam
feito cobras
e subir dizendo baixo em seu ouvido
aquilo que tu gostas de ouvir
dizer que se não for pra te amar
eu prefiro partir e esquecer de lembrar
que você existe em qualquer lugar
fora de mim
é triste que no final das contas
o amor seja assim
um sim
depois um não
depois o fim
(então penso que se é amor não pode ter fim)
então invento um novo início
onde todo o sofrimento e suplício
já havia sido vivido noutro dia
e o que resta é uma manhã de domingo
uma réstia de sol que alcança nossos pés na cama
e um abraço longo ao invés do bom dia...




segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Minha Boêmia (Fantasia)



"Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos; 
Meu paletó também tornava-se ideal; 
Sob o céu, Musa! Eu fui teu súdito leal; 
Puxa vida! A sonhar amores destemidos! 

O meu único par de calças tinha furos. 
- Pequeno Polegar do sonho ao meu redor 
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior. 
- Os meus astros nos céus rangem frêmitos puros. 

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho, 
Nas noites de setembro, onde senti tal vinho 
O orvalho a rorejar-me as fronte em comoção; 

Onde, rimando em meio à imensidões fantásticas, 
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas 
E tangia um dos pés junto ao meu coração!"




[ Arthur Rimbaud ]

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Sobre Cartas e Romance (ou) Coisas em extinção

Na minha humilde opinião, poucas coisas são tão românticas quanto cartas.
Engraçado como as duas coisas soam antiquadas nos nossos dias. Cartas e romance.
Não cabem nesses dias de pressa.
Pressa essa que nos faz querer tudo rápido, rápido, depressa.
Expresso. Um café por favor, antes que eu me esqueça.
Esquece, antes que me aqueça. Já foi.
Acendo um cigarro e busco formas na fumaça cremosa, disforme.
Círculos, fractais, a minha vista embaça. Volto ao começo.
Cartas. Há tempos não escrevo.
Falta motivação. Só apelo para uma carta quando não há saída aparente.
Quando é mais do que urgente, quando fico sem voz pra verbalizar frente-a-frente.
Quando o e-mail ameaça cair no lixo eletrônico ou soar impessoal.
Nunca uso o telefone, fico pensando em como ouvem minha voz.
Acho que ela soa mais bonita na folha, na cabeça de quem lê.
Eu sei, parece estranho e na verdade é. Algo sobrenatural.
Percorrer linha após linha, sentir o cheiro das folhas, se surpreender.
É físico, entende?
Alteração do ritmo cardíaco, o dilatar das pupilas, a absorção das palavras...
Os sentidos agindo, enquanto as palavras fluem e quando chega ao final, voilà!
É quase impossível se sentir impassível aos efeitos de uma carta bem escrita.
Algumas palavras gritam! Em silêncio elas sussurram e se agitam.
Sem qualquer alarde elas tem o poder de fazer o resto do universo desaparecer...
E o que fica é ela. Ela e você. Sempre que você quiser reler...
Então a fumaça me traga de volta dos devaneios.
Num relance, estou de novo no começo.
Romance.
Imagine todas as sensações que uma carta bem escrita causa, vezes três, sem precisar dizer nada.
E o universo novamente desaparece, a cada memória. E a segunda parece domingo de manhã, quando sua canção toca, e o coração dispara e você não vê a hora de vê-la de novo, e agora?
Que tal pegar um papel e uma caneta, um pouco de inspiração, um pouco de som...baixinho...

Talvez nem tudo esteja perdido, Senhor, não deixai coisas tão belas caírem em extinção.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

de vin et de la brise


Rafa acordou tarde demais pra aproveitar tudo o que aquele belo dia de outono oferecia. Já eram quase quatro horas da tarde, e os meninos já deviam estar voltando da caminhada que marcaram na trilha do pico dos urubus, também conhecido como pico 10, o melhor pôr-do-sol de toda a cidade.
Permaneceu ali em seu quarto, sentada em sua cama, fitando o espelho a sua frente. Tinha os lábios ainda vermelhos do vinho barato que havia jorrado noite passada. Como dizia um de seus amigos metido a poeta, "nenhum vinho vem sozinho". Vinho vagabundo, pensou, quase sempre traz é a ressaca moral no encalço, e o bicho pega mesmo no dia seguinte..."É, acho que era isso o que ele queria dizer..."
Mas a noite passada já estava longe, não havia do que se arrepender. Essas noites frias não perdoam, e cada espaço vazio torna tudo mais gelado. Rafa não gostava exatamente das pessoas em geral, mas o calor que vinha delas agradava, e também, elas eram ótimos anteparos diante do vento cortante.
Acendeu um cigarro, e pensou no que faria essa noite, no que faria pra mandar seu pensamento pra longe do caminho ao qual ele sempre acabava se dirigindo. Feito um míssil teleguiado, depois de umas garrafas de mentira del valle, iam direto na direção daquele cara que vivia em uma página já virada. Por vezes sentia raiva de si mesma, e em suas tentativas de entorpecer aquele sentimento que não a abandonava, ("maldita nostalgia!"), ela por vezes acabava mirando e atirando em algum desavisado que cruzasse seu caminho. Isso lhe concedia uma certa liberdade, durante algum tempo, mas logo o interesse se esvaía.
Ninguém ali parecia ter algo realmente importante para dizer. O cigarro se desfaz em cinzas antes que ela se dê conta. "É, não importa quantos desse você fume, eles nunca te deixam inteiramente satisfeita".
Era mais ou menos o que ela pensava em relação aos homens. Por isso, às vezes gostava de brincar com as garotinhas também. Nada sério, curtição mesmo. Às vezes você bebe demais, e quando você percebe, já está dançando em cima da mesa com as garotas, ou trancada no banheiro com a dona da casa. Mas tudo isso passa, e no dia seguinte, é melhor procurar algo pra acordar nessa cidade sonolenta...então depois de um belo banho em ritmo de jazz, ela se arruma, enrola um cigarrinho e sai pra ver o mundo enquanto a noite cai.
Fones no ouvido, ela acende e caminha em direção a cidade. Escolhe o caminho mais solitário, o que significa menos olhares indiscretos e uma menor probabilidade de encontros indesejáveis, a brisa bate suavemente, nos cachos negros dos seus cabelos que se movem no groove dos seus passos, enquanto os últimos resquícios do arrebol se dissipam na imensidão azul marinho do céu.
Suas pupilas dilatadas e olheiras de buraco negro sugam o resto da luz que o dia deixou, e ela caminha tranquila nas sombras. Não importa o que vem pela frente, não importa o que os outros pensam, não, nada disso importa. Tudo está em paz agora, enquanto sua boca seca e seus lábios trincam. Apesar do brilho em seus olhos, a verdadeira fagulha permanece invisível, segura e protegida dentro dela. Apesar das tentativas, nada seria capaz de detê-la.
Outra noite começava, e ela segue caminhando, com sua sede insaciável de vida e vinho.
Um último trago, logo ela teria companhia. Virando a esquina encontrou o poeta caminhando em sua direção, trazia uma garrafa. "Nenhum vinho vem sozinho" os dois disseram juntos, e riram antes do primeiro brinde da noite.
Caminharam abraçados em direção a mais uma celebração.
Comemorariam a inspiração do tédio que possibilita que hajam motivos para celebrar a ausência de comemorações.
Era só mais uma noite fria de outono, mas eles nunca deixam nada passar batido...






sábado, 14 de maio de 2011

Miado


Ouvi um gato miando alto
em algum lugar,
e logo segui seu chamado, encontrei-o preso
acuado
não conseguia se livrar do lugar onde havia se enfiado
na verdade conseguiria, mas sabe-se lá por que
ele tinha medo. e miava, miava
então eu fui
entrei debaixo do carro e disse
- gato! por que vc não sai daí, gato?
aí ele respondeu, miau
e saiu correndo
entrou no quintal de uma casa
e desapareceu
então desconfiei que ele estava ali, talvez
porque ele quisesse
pra afastar a tristeza, miando blues
exigindo alguma atenção.
mas eu fiz a minha tentativa
e ele se foi
de volta ao caminho
fui eu que uivei
uma gata ouviu
olhou, brilhou os olhos
miau, como se hoje não...
então sumiu.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

La Luna


Ela andava confusa em seu refúgio sombrio.
Tanta coisa havia acontecido em tão pouco tempo, pessoas adoráveis surgiram, enquanto algumas desejáveis tinham decidido partir. Buscava o equilíbrio, mas faltava um pouco de risco pra que tudo acontecesse.

Ele andava meio perdido no meio daquela luz toda.
Tinha medo de se aproximar muito, de se sentir novamente entregue a sentimentos que, desconfiava, fossem passageiros, mas que deixariam marcas eternas. Procurava conforto, algum recanto pacífico onde seus medos não o encontrassem.

Certo dia, os dois se encontraram, e foi como um eclipse, lindo e efêmero.
Decidiram então realinhar seus astros, e sempre que possível, orbitavam um ao redor do outro, e prometeram que assim seria até que as estrelas caíssem.
Se caíssem...

Escapismo #1




Acordou com dificuldade,
os sonhos por piores que fossem, eram apenas sonhos.
Restava ainda a sensação de alívio,
havia se livrado mais uma vez de viver aquelas vidas.

Mais um dia começava com outra fuga bem-sucedida.

O que o levaria de volta ao começo, que por melhor que fosse,
era apenas mais um começo.
Restava ainda um sentimento agridoce,
poderia escolher dessa vez algum novo caminho.

E outro novo dia seguia ecoando a velha pergunta:
- de que vale uma vida que se sonha sozinho?

terça-feira, 26 de abril de 2011

e O Silêncio

fechado em meu silêncio
eu abstraio o estrondo exterior
e apenas espero o tempo correr
e ele escorre
eu olho
tento sentir o mínimo
meu ânima sem muito
ânimo
em estado de espera
nem se desespera
respira, acalma
a alma, inspira
a calma (ainda não)
acaba.

As Folhas

uma menina muito branca
caminha sob um céu azul
observando as folhas secas
antes muito verdes
caírem no chão cinza.

ela nem se pergunta porque.

O Vento

o vento do outono novamente me arrepia a nuca
ele sempre traz um pouco da velha desolação
eu me sinto sempre desprotegido quando ele sopra
e me envolve
me faz querer ser envolvido
devolvido
ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Circus Noir

quando as noites se arrastam rumo ao dia
em um strip-tease em câmera lenta
sob a luz branca e cega de uma enorme lua
pessoas se encontram e se perdem
se cospem e se despem e se metem
se comem, e se amam
se escondem, se abrigam
em plena rua, a plenos pulmões eles gritam
e uivam quando ela está no ápice
quente, louca e nua
então sempre mais é o que eles pedem
mais, mais, e mais dela que não é minha
dela que já foste tua e de todos
que vagam sempre procurando algo ou
alguém que possa ser usado, absorvido
inalado ou dissolvido antes que o dia queime
as retinas e revele toda sujeira
toda a insônia e toda infâmia rotineira
alvorecer de toda insânia
esconderijo dos poetas e suas olheiras
mas ela...a noite, sempre volta
então eles recomeçam a correr atrás delas
das puras sujas, das putas puras
das casadas e das donzelas
novas danças e carícias se consumam
até o dia raiar e eles começarem
novamente a morrer...enquanto elas dormem
os poetas de olhos vidrados fumam folhas em branco
ao som dos estampidos
as mães choram seus filhos e os doentes pedem cura
as crianças pedem o leite que seca nos peitos
e a vida continua...



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

15 Passos

eu dei pra ela um amor que eu não tinha.
eu sei, eu sei como. eu sei que não podia tanto quanto devia.
eu sei. mas mesmo assim eu dei.
eu dei por que sei que ela precisava mais que eu.
eu sei que não havia, por isso inventei.
mas isso não se pode chamar de mentira, porque é verdade.
e verdade por verdade...só depende de quem acredita.

eu acreditei.

eu acreditei nos olhos, e perdi a fé.
acreditei na matéria, na ciência.
eu peguei a pá, desandei a pé.
duvidei do destino, perdi a paciência.

doei tudo que tinha, abri minhas gavetas
revirei os armários, os meus bolsos
escondi meus cadernos, ignorei meu passado
e preenchi o mundo dela.

o meu esvaziei.

e no meu vazio, a cheia dela me inundava.
passaram-se carnavais
sua luz de lua crescente me cegava.
apagavam-se os sinais
minha estrela distante quase não brilhava.
mais, mais, mais, mas
me sentia minguando...e de tão leve e entorpecido

parecia que flutuava.

cheguei a estratosfera
vi o planeta nascer
o sol raiar
a noite cair
e o ciclo recomeçar
mas aí começou
começou a faltar ar
então sua voz era apenas um grito
violento, imperativo

parecia que queria me ferir
me isolar
me banir, me bater
me impedir de querer
eu só queria, eu só queria você
eu só queria morrer (como pude terminar onde comecei?)
ou então acordar (como pude terminar onde eu errei?)

você nunca quis perder, mas não soube como ganhar

mas era só a queda, a minha queda.
o voo inevitável rumo ao eu que ignorei.
o mergulho. meu inexorável retorno ao que
jamais deixei de ser. é, eu voltei.
eu. aquele. que. não. consegue. viver. dando. amor.
sem. receber. um pouco. ao menos. de. calor.

então finalmente o seu fio desenrolou.
rompeu-se o velho e mórbido silêncio.
e o frio me despertou, o apetite de algo que não seja sem sabor.
o gosto pelas velhas e boas e doces palavras. os vinhos e a música.
a curiosidade em sentir de novo o que pode ser o amor.
você tem fatos para o que quer que seja.
a licença poética de ligar as 3 am pra investigar a distância
que você mesma criou entre o que você faz e o que deseja
o que eu faço longe da tua corrente
ou que maré é essa que me arrasta pelo rio
e faz querer me deixar levar pela correnteza.

mas eu não tirarei meus olhos da bola novamente
eu não quero mais as certezas nem as celas
você sempre me enrola e depois corta o fio.
eu já não vejo mais beleza nesse meu sacrifício
eu já te dei vida, pequena, um novo solstício
e não quero mais esse stand-by, não quero mais
precisar de airbags a cada conversa
não quero mais olhar teus olhos parados tentando me parar
como se fossem braços, eu estou indo embora, amor

só mais 15 passos.









terça-feira, 14 de dezembro de 2010

King Of The Rodeo

He's so the purity, a shaven and a mourning,

And standing on a pigeon toe, in his disarray

Straight in the picture pose,
He's coming around to meet you

And screaming like a battle cry, its more if i stay

Me and your cold, driving in the snow,
Let the good times roll, let the good times roll
Cowgirl king of the rodeo, let the good times roll,
Let the good times roll

How dare you come to me like withnail for a favor,
Hold on not my fairy tale you're trying to start

Take off your overcoat, you're staying for the weekend,
And swaying like a smokey grey, a drink in the park

Good time to roll on.

kings of leon