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terça-feira, 26 de abril de 2011

e O Silêncio

fechado em meu silêncio
eu abstraio o estrondo exterior
e apenas espero o tempo correr
e ele escorre
eu olho
tento sentir o mínimo
meu ânima sem muito
ânimo
em estado de espera
nem se desespera
respira, acalma
a alma, inspira
a calma (ainda não)
acaba.

As Folhas

uma menina muito branca
caminha sob um céu azul
observando as folhas secas
antes muito verdes
caírem no chão cinza.

ela nem se pergunta porque.

O Vento

o vento do outono novamente me arrepia a nuca
ele sempre traz um pouco da velha desolação
eu me sinto sempre desprotegido quando ele sopra
e me envolve
me faz querer ser envolvido
devolvido
ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Explicações (uma tentativa)

Eu tenho tentado sorrir, mas dói. Como se essa licença me tivesse sido tirada, como se o rasgo na minha cara fosse costurado, como se parecesse algo sempre simulado. Nunca os cigarros queimaram tão rápido e ansiosos por evaporarem me consumindo, nunca os consumi com tanto asco, me sentindo obrigado a ser tragado pela fumaça que finge me aliviar e me levar com ela pra longe, para o cume do ar.
Eu tenho tentado viver em paz, sem escolher um lado, sem ignorar meu fardo, sem esquecer meu passado mesmo sendo tentado. Não consigo mais ser tão dissimulado. Ser eu no palco e fora dele um ator. Ser contaminado pela descrença alheia, ser só mais um idealista a afundar nessa coisa movediça, nessa areia composta dos restos dos sonhos de gente que desiste. Eu insisto. Eu existo, acho.
Eu tenho sido incapaz de amar mais. Tenho o que veio antes e o que vem depois mas não sei o que fazer agora nesse limbo de existência, o meu eu. Eu esse que não aprende a se prender, continuamente se desprende com excelência, deixando coisas pendentes, caindo eternamente feito estrela cadente com um brilho fosco de abajur antigo de um tempo decadente.
Esse eu deveria ser outro. Deveria ser o que os outros veem. O holograma. A pintura. O intelecto, o charme, os olhos, a cultura, o som, o beijo, o abraço, o estilo, a pica dura. Mas não. Esse eu é outro. Esse aqui é mais real, mais perdido. Esse aqui tem dúvidas e dentes a menos. Tem a doença de sempre querer uma cura.
Onde está a cura afinal?
Pra minha EQM constante, qual a solução pra esse eu que não consegue deixar de ser uma tristeza ambulante, um pedinte mendicante que não consegue dar amor? Eu não posso fingir felicidade, se tudo que sinto é dor, não posso despertar estando chapado nesse torpor.
Sinto que não posso esperar a salvação chegar, nem a loucura passar e muito menos minha vida naufragar. Sinto que não posso me entregar a algo que me consome, que me engole e me vomita todo dia e nas noites me mastiga devagar.
Sinto que disse e disse e disse, sem conseguir explicar. Outra vez falhei.
Sinto que sendo inútil então dizer, talvez seja melhor calar.
Calei.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Vinte e dois

Vinte e dois de junho.

Há vinte e dois anos atrás eu mergulhava assustado no mar de luzes brancas que não me deixavam abrir demais os olhos e em meio ao barulho ensurdecedor do caos dos carros na avenida nove de julho do lado de fora da janela, eu gritei, pela primeira vez.

Vinte e dois anos à frente, na madrugada gélida no início de mais um inverno, sozinho na sala de casa. Apenas eu. Eu e o silêncio. Um cigarro, um café requentado. A respiração dos que dormem. Se houvesse um número, talvez alguma mensagem chegasse, talvez. Se a internet funcionasse, eu notaria mais cedo e desinteressado a falta de criatividade dos mecanizados que desejam o velho parabéns, tudo de bom, muita saúde, paz e dinheiro no bolso. É fácil falar. Ninguém pensa na sua saúde enquanto você acende um cigarro atrás do outro. Muito menos na sua paz, quando nada parece dar certo, quando as mulheres não te olham e não te querem, quando você se senta pra escrever e sente o vazio sufocante da folha e seus dedos não se mexem, quando você cai, quando não vão com a tua cara, ninguém de fato se importa. Ninguém põe um Real no seu bolso ou te paga um café. Não te oferecem um bolinho de haxixe, nem um pouco de sexo casual só porque há vinte e dois anos atrás você ganhou o incrível privilégio de estar pronto pra morrer.

Sem novidades, deitei em minha cama e dormi. Nos meus sonhos o meu subconsciente jorrava imagens de pessoas e animais e situações absurdas, que não valem registro. De manhã, minha sobrinha chega para esperar o horário da escola. Me acorda e pergunta sobre o controle da tv. Eu o pego no canto do colchão, troco-o por um beijinho e volto a dormir. Sono despedaçado. Abro os olhos de vez em quando. Ouço minha mãe chegar para o almoço e finjo ainda dormir pesado. Por algum motivo, não quero me levantar. Adormeço de novo, esperando que alguém me acorde com algum carinho, que me dê um abraço. Desperto de novo com a narração de um gol. Olho fixo para o teto, já deve ser de tarde. Tenho de buscar remédios para minha mãe no posto de saúde. Posso aproveitar para passar em alguma lan-house e checar meus e-mails. As melhores mensagens sempre vem por e-mail. Fecho os olhos. Hoje parece ser o dia mais frio do ano. Por dentro e por fora.

Por algum motivo, ainda espero deitado, pensando alto. Começo por elas, claro. A primeira e mais tímida, por mais que tivesse sangue espanhol, mandaria simpáticos cumprimentos via net, o que se confirmou mais tarde. A segunda talvez viesse, depois de três anos, me mostrar suas novas tatuagens e quem sabe outras coisas interessantes que aprendera nesse meio tempo, me olhando com os mesmos olhos meigos de sempre depois de testar meu fôlego. Não. Então penso na terceira, que viria acompanhada de dois ou três amigos em comum, trazendo cervejas e petiscos, talvez com um bom livro ou disco pertinente. Passaríamos uma tarde agradável, tomando o devido cuidado de não olhar muito nos olhos e parecermos bons amigos e não o tipo de gente que espera o menor descuido dos presentes pra relembrar o passado dentro de um banheiro qualquer. Não. A quarta não me surpreenderia. As outras são apenas outras. Chega. Nenhuma virá. Talvez, daqui a meia hora algum amigo grite no portão, ansioso por alguma boa celebração de terça-feira, então novamente eu fecho os olhos. Penso no meu pai. Sonhos breves e desconexos. Abro os olhos novamente, dessa vez ciente que ninguém virá. Não há o que, não há quem, não há mais nada a esperar.

Me levanto e sinto o frio arrepiar meus pelos do corpo inteiro, visto apenas uma calça leve. Passo pela sala, meu irmão assiste a novela debaixo de cobertas no sofá, eu vou direto até a cozinha, até a garrafa de café, pego um pouco e esquento onze segundos no microondas, enquanto acendo um cigarro. Sinto o olhar de desaprovação às minhas costas mas não olho. Bebo o café e termino de fumar olhando para o espelho ao lado do banheiro. Evito tirar conclusões, apenas termino de fumar, pego uma toalha e tomo um banho quente, exercitando minha técnica infalível de cantarolar músicas mentalmente para evitar pensar no que acontece do lado de fora. Um escapismo conveniente, ou uma fuga ritmada como eu gosto de chamar. Sempre funciona.

Saio no frio fazendo tudo rápido. Cueca. Meias. Desodorante. Calça. Camiseta. Blusa. Tênis. Cigarros. Isqueiro. Receita. Rua. O dia é cinza, o vento é ártico, com sereno constante. Eu caminho até o posto e lá me dou conta de que minhas primeiras palavras do dia foram “por favor, onde fica a farmácia?”. Retiro os remédios, faltou amoxicilina. Ando um pouco pela rua, nada demais acontece. Volto para casa a tempo de ver o jogo da Argentina contra a Grécia. Passo raiva, gregos não sabem jogar bola. Talvez entendam de churrasco gorduroso no Anhangabaú, ou de beijar cus por aí, mas não de futebol. Faço minha primeira refeição, um pão com manteiga. O jogo acaba, minha mãe chega, eu mostro os remédios, ela diz que precisava mesmo era da amoxicilina e me deseja um feliz aniversário, eu respondo um valeu inaudível.

Decido almoçar e sair. Talvez algo me espere lá fora, fora o frio. Talvez alguém esteja me procurando, fora eu. Talvez o futuro esteja guardando o meu presente. Talvez...

Mas não houve nada demais. Na lan-house, a garota que me conhece me deseja parabéns pelo aniversário e logo em seguida pergunta minha data de nascimento para fazer meu cadastro. Eu digo número por número observando sua expressão surpresa por ver que os números que eu dizia eram exatamente idênticos a data de hoje, exceto pelo ano. Algo se mexe dentro de mim. Dou a ela meus únicos cinquenta centavos, e ao creditar na minha conta, o sistema me dá duas horas extras pela data especial. Finalmente, um pouco de magia. Vejo os recados (parabéns, tudo de bom...etc.), jogo umas partidas de pôquer e saio.

Encontro uns amigos, alguns deles acendem velinhas. Outros abrem vinhos. Uma me entrega o original de um trabalho de escola feito com textos meus. Uma antologia. A professora quer me conhecer. Esqueço de perguntar se é bonita. A noite segue.

Vinte e dois de junho. Há vinte e dois anos atrás eu mergulhava assustado no mar de luzes brancas que não me deixavam abrir demais os olhos e em meio ao barulho ensurdecedor do caos dos carros na avenida nove de julho do lado de fora da janela, eu gritei, pela primeira vez, e não havia volta.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Epitáfio

Jaz aqui nesse lugar perdido, sobre esse fundo branco, mais um epitáfio dentre tantos outros que já escrevi, mesmo que por outros nomes eu os tenha chamado. Jaz aqui registrado em português pobre os restos de um sentimento carcomido e seco como jardim mal-cuidado. Jaz aqui meu cansaço e fadiga por ter tentado carregar algo que pra mim tornou-se demasiado pesado. Jaz aqui meu último sentimento de culpa por ter de certa forma falhado. Assim como você, eu falhei em acreditar que algum de nós poderia mudar. Mas agora eu sei que não, e espero que a essa altura você já tenha descoberto. Ninguém me molda, pois a vida já se encarrega do serviço. Ninguém me poda, sem meu consentimento, sem se cortar nos meus espinhos. Agora eu sei, ninguém te muda também. Ou talvez eu não tenha feito certo. Minha retórica sempre ecoou no seu silêncio. Meus argumentos sempre invalidados pelas tuas cobranças de nada valeram. Tuas manhas nunca me comoveram. Enquanto tuas lágrimas molhavam os lençóis, minhas lágrimas escorriam pelo ralo do banheiro. E nada mudou. Mas isso é só o final.
Antes disso foi bom, querida. Lembra, aquela química? As tardes envolvidas nas cobertas, a música, o ritmo? Nossas descobertas, a busca incessante pelo corpo do outro, os instantes infinitos que nos uniam. A fadiga, os banhos quentes, os cigarros depois do amor, as brincadeiras na cozinha quando tudo que o corpo pedia era mais combustível, mais gasolina pra podermos queimar logo em seguida, feito primitivos, sem nenhum compromisso com o mundo lá fora, com o que as pessoas costumam chamar de vida. Nós éramos Deuses, querida. Agora somos homens, pequenas criaturas caídas.
Pra ser sincero, eu te amei. Enquanto você dormia exausta e eu te olhava, eu te amei. Quando você vinha e me acordava com beijinhos e carícias, eu te amei. Quando soube que flertavas com o passado, eu tive raiva e te amei. Quando você me pedia e me provocava, eu te amei. Quando estava sozinho e te esperando, sim, te esperando, te amei. Enquanto você tentava me sufocar, eu continuava tentando, tentando continuar a te amar. Enquanto você me metralhava com desconfiança, eu ainda alimentava esperança, eu ainda te amava, mas acho que agora acordei, então pude olhar pra dentro, e não te encontrei. Talvez você nunca tenha entrado. Talvez tenhamos feito tudo errado, talvez...
Já não importa agora. Te perguntei o que querias de mim, o silêncio respondeu. Você disse que não queria se humilhar, eu nunca lhe pedi isso, só queria te ouvir falar. O silêncio respondeu. O que ele me disse? Ele disse: - Você se perdeu.
Agora você não pode reclamar. Tens o melhor de mim, a parte mais importante de mim com você. Já eu nada tenho, por isso nada temo. Já que tudo teve de ser assim, que seja. Nosso elo é eterno, sem fim.
Enfim. Creio que disse tudo que precisava dizer. Talvez tenhas conseguido o que queria. Com o tempo saberemos se essa coisa triste foi mesmo meu último resquício de poesia pra você.

Até qualquer dia.

M.