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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Vinte e dois

Vinte e dois de junho.

Há vinte e dois anos atrás eu mergulhava assustado no mar de luzes brancas que não me deixavam abrir demais os olhos e em meio ao barulho ensurdecedor do caos dos carros na avenida nove de julho do lado de fora da janela, eu gritei, pela primeira vez.

Vinte e dois anos à frente, na madrugada gélida no início de mais um inverno, sozinho na sala de casa. Apenas eu. Eu e o silêncio. Um cigarro, um café requentado. A respiração dos que dormem. Se houvesse um número, talvez alguma mensagem chegasse, talvez. Se a internet funcionasse, eu notaria mais cedo e desinteressado a falta de criatividade dos mecanizados que desejam o velho parabéns, tudo de bom, muita saúde, paz e dinheiro no bolso. É fácil falar. Ninguém pensa na sua saúde enquanto você acende um cigarro atrás do outro. Muito menos na sua paz, quando nada parece dar certo, quando as mulheres não te olham e não te querem, quando você se senta pra escrever e sente o vazio sufocante da folha e seus dedos não se mexem, quando você cai, quando não vão com a tua cara, ninguém de fato se importa. Ninguém põe um Real no seu bolso ou te paga um café. Não te oferecem um bolinho de haxixe, nem um pouco de sexo casual só porque há vinte e dois anos atrás você ganhou o incrível privilégio de estar pronto pra morrer.

Sem novidades, deitei em minha cama e dormi. Nos meus sonhos o meu subconsciente jorrava imagens de pessoas e animais e situações absurdas, que não valem registro. De manhã, minha sobrinha chega para esperar o horário da escola. Me acorda e pergunta sobre o controle da tv. Eu o pego no canto do colchão, troco-o por um beijinho e volto a dormir. Sono despedaçado. Abro os olhos de vez em quando. Ouço minha mãe chegar para o almoço e finjo ainda dormir pesado. Por algum motivo, não quero me levantar. Adormeço de novo, esperando que alguém me acorde com algum carinho, que me dê um abraço. Desperto de novo com a narração de um gol. Olho fixo para o teto, já deve ser de tarde. Tenho de buscar remédios para minha mãe no posto de saúde. Posso aproveitar para passar em alguma lan-house e checar meus e-mails. As melhores mensagens sempre vem por e-mail. Fecho os olhos. Hoje parece ser o dia mais frio do ano. Por dentro e por fora.

Por algum motivo, ainda espero deitado, pensando alto. Começo por elas, claro. A primeira e mais tímida, por mais que tivesse sangue espanhol, mandaria simpáticos cumprimentos via net, o que se confirmou mais tarde. A segunda talvez viesse, depois de três anos, me mostrar suas novas tatuagens e quem sabe outras coisas interessantes que aprendera nesse meio tempo, me olhando com os mesmos olhos meigos de sempre depois de testar meu fôlego. Não. Então penso na terceira, que viria acompanhada de dois ou três amigos em comum, trazendo cervejas e petiscos, talvez com um bom livro ou disco pertinente. Passaríamos uma tarde agradável, tomando o devido cuidado de não olhar muito nos olhos e parecermos bons amigos e não o tipo de gente que espera o menor descuido dos presentes pra relembrar o passado dentro de um banheiro qualquer. Não. A quarta não me surpreenderia. As outras são apenas outras. Chega. Nenhuma virá. Talvez, daqui a meia hora algum amigo grite no portão, ansioso por alguma boa celebração de terça-feira, então novamente eu fecho os olhos. Penso no meu pai. Sonhos breves e desconexos. Abro os olhos novamente, dessa vez ciente que ninguém virá. Não há o que, não há quem, não há mais nada a esperar.

Me levanto e sinto o frio arrepiar meus pelos do corpo inteiro, visto apenas uma calça leve. Passo pela sala, meu irmão assiste a novela debaixo de cobertas no sofá, eu vou direto até a cozinha, até a garrafa de café, pego um pouco e esquento onze segundos no microondas, enquanto acendo um cigarro. Sinto o olhar de desaprovação às minhas costas mas não olho. Bebo o café e termino de fumar olhando para o espelho ao lado do banheiro. Evito tirar conclusões, apenas termino de fumar, pego uma toalha e tomo um banho quente, exercitando minha técnica infalível de cantarolar músicas mentalmente para evitar pensar no que acontece do lado de fora. Um escapismo conveniente, ou uma fuga ritmada como eu gosto de chamar. Sempre funciona.

Saio no frio fazendo tudo rápido. Cueca. Meias. Desodorante. Calça. Camiseta. Blusa. Tênis. Cigarros. Isqueiro. Receita. Rua. O dia é cinza, o vento é ártico, com sereno constante. Eu caminho até o posto e lá me dou conta de que minhas primeiras palavras do dia foram “por favor, onde fica a farmácia?”. Retiro os remédios, faltou amoxicilina. Ando um pouco pela rua, nada demais acontece. Volto para casa a tempo de ver o jogo da Argentina contra a Grécia. Passo raiva, gregos não sabem jogar bola. Talvez entendam de churrasco gorduroso no Anhangabaú, ou de beijar cus por aí, mas não de futebol. Faço minha primeira refeição, um pão com manteiga. O jogo acaba, minha mãe chega, eu mostro os remédios, ela diz que precisava mesmo era da amoxicilina e me deseja um feliz aniversário, eu respondo um valeu inaudível.

Decido almoçar e sair. Talvez algo me espere lá fora, fora o frio. Talvez alguém esteja me procurando, fora eu. Talvez o futuro esteja guardando o meu presente. Talvez...

Mas não houve nada demais. Na lan-house, a garota que me conhece me deseja parabéns pelo aniversário e logo em seguida pergunta minha data de nascimento para fazer meu cadastro. Eu digo número por número observando sua expressão surpresa por ver que os números que eu dizia eram exatamente idênticos a data de hoje, exceto pelo ano. Algo se mexe dentro de mim. Dou a ela meus únicos cinquenta centavos, e ao creditar na minha conta, o sistema me dá duas horas extras pela data especial. Finalmente, um pouco de magia. Vejo os recados (parabéns, tudo de bom...etc.), jogo umas partidas de pôquer e saio.

Encontro uns amigos, alguns deles acendem velinhas. Outros abrem vinhos. Uma me entrega o original de um trabalho de escola feito com textos meus. Uma antologia. A professora quer me conhecer. Esqueço de perguntar se é bonita. A noite segue.

Vinte e dois de junho. Há vinte e dois anos atrás eu mergulhava assustado no mar de luzes brancas que não me deixavam abrir demais os olhos e em meio ao barulho ensurdecedor do caos dos carros na avenida nove de julho do lado de fora da janela, eu gritei, pela primeira vez, e não havia volta.

sábado, 25 de julho de 2009

Eco.

depois do silêncio...você sabe.
vem o estrondo.
e vem de dentro. vem das vezes que implodi.
dos monstros que engoli.
das catástrofes que não causei
por pensar duas ou três vezes, olhar os tacos e as bolas
e janelas
e as pessoas que esperavam pra ver o que eu faria
sabendo o que eu queria e temendo por isso.
e neguei a todos, pra sofrer sozinho.
acendi cigarros pra apagar incêndios internos.
observei o céu, pra ter noção de distância.
e desejei não me lembrar. triste isso.
e comecei a caminhar...pensava blues.
afundei no asfalto.
talvez tenha derrubado uma lágrima, que se dissolveu na poça.
e me odiei, tanto quanto te amei.
mas a noite seguia. apenas deslizei, ladeira acima.
me perdi de propósito, pra ignorar vestígios.
mas cada paralelepípedo me dizia que não poderia fugir.
sentei, chorei e ri.
não há fuga, não de ti.
ainda aqui. ainda...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sobre meninos e deusas

Despertou como se houvesse despencado de um penhasco direto em sua cama. Pode ouvir uma espécie de estalo, como se sua alma estivesse mesmo muito longe, e fosse tragada de volta violentamente, atravessando qualquer tempestade ou arranha-céu ou parede que os separasse para cair novamente naquele corpo franzino, que dormia sonhos intranquilos no cômodo escuro. Talvez ela não tivesse realizado um encaixe perfeito, depois do pouso forçado, ou talvez aquela sensação estranha que ele sentia se devesse apenas aos sonhos tumultuados em imagens muito rápidas e vertiginosas, que ora o remetiam à acontecimentos de sua infância, ora lançavam imagens surreais de antigos deuses que vinham cobrar-lhe algo que nunca soubera que devia, fazendo-o alucinar cenas de castigo e danação eterna. Dessa vez foi Kali, assustadora com seus três pares de braços, armada até os dentes e sedenta por destruição, quem veio assombrá-lo.

Sentou na cama, limpando o suor da testa com as mãos, respirando fundo e olhando ao redor para reconhecer a mobília do quarto, para certificar-se que acordara exatamente onde dormira. Provou uma vez mais aquela sensação estranha e gratificante de estar vivo, e tirou os pés descalços da cama, tocando o chão frio. Ainda estava escuro e ele não sabia que horas eram. Não podia saber o que esse dia lhe reservava. Não se daria conta até o ultimo segundo desse dia, que poderia ser apenas mais um, mas seria o efêmero. O mais belo e estranho deles. Também seria o último.

Banhou-se demoradamente, repassando mentalmente tudo que diria na reunião marcada para as nove da manhã com o diretor de cultura do município, na qual trataria sobre a restauração do antigo Cineteatro da cidade. Estava até certo ponto confiante e um pouco ansioso. Havia trabalhado durante meses redigindo o projeto, distanciando-se de amigos e de seus próprios projetos, empenhando tempo e até mesmo um pouco de seu pouco dinheiro nesse sonho, que não era apenas seu. Lembrou-se das tantas sessões que acompanhara ao lado de sua mãe, que trabalhou durante muitos anos na bilheteria, antes de perder a saúde e ter de se afastar.

Já havia amanhecido quando passou sua roupa e engraxou os sapatos. Escolheu sua gravata amarela, presente que recebeu de sua mãe quando completou 15 anos. Ela dizia que realçava seus olhos. Ele a usara apenas duas vezes até então; a primeira na formatura do ginásio e a segunda no funeral da mãe. Nas duas ocasiões, quem reparou naqueles olhos, saberia que ela estava certa.

No horário marcado ele estava lá. Aguardando do lado de fora da sala, fitava a porta fechada. Depois de cerca de quarenta minutos, a secretária pediu que ele entrasse. O diretor estava sentado à sua mesa, com seu porte avantajado espalhado na cadeira, careca lustrosa e bigode impecável.

- Sente-se, meu jovem, disse ele ajeitando-se.

- Claro, obrigado, ele respondeu, sentando-se à frente do homem.

- Pois então, você disse que queria mostrar-me algo, fique à vontade, disse o diretor, fingindo interesse.

- Sim, sim, eu vim porque escrevi um projeto que visa a recuperação do antigo Cineteatro, que é um patrimônio da cidade e que foi abandonado, por que não dá uma olhada?, disse, entregando uma pasta ao diretor.

Olhava com expectativa, mas não demorou muito para ter certeza de que o que mais temia iria acontecer. Ele nem abriu, não leu uma linha, apenas segurou a pasta com aquelas mãos inchadas, gesticulando e falando com aquele olhar que transpassa sem nada notar. Começou dizendo que era uma questão deveras complexa e que na atual conjuntura, aquilo não estava nos planos e que não haveria como pautar aquilo no momento, pois haviam outras prioridades, e nessa altura o jovem rapaz já não conseguia ouvir o que ele dizia, mas já sabia de cor o que ele diria e sabia que era irreversível, só conseguia olhar para a pasta que balançava entre aqueles dedos e o suor que brotava daquele bigode e para a luz que refletia naquela cabeça, olhou em volta, para a porta, sentindo-se nauseado, quase nocauteado por aquela verdade podre na qual nunca quis acreditar, mas que sempre estivera ali.

O diretor ainda falava quando ele pediu licença e saiu da sala sem olhar para trás. Afrouxando a gravata para conseguir quem sabe um pouco mais de ar, deixou o prédio da prefeitura, sentindo ainda aquela coisa presa entre o peito e a garganta, que pulsava, pulsava e não saía. Não saberia explicar, não era apenas raiva ou desapontamento ou tristeza, revolta, inconformismo. Talvez fosse tudo aquilo, talvez fosse apenas o vazio enorme que sentia, que pesava tanto. Talvez a revelação de que seu sonho estava morto doesse muito mais do que correr uma vida inteira na esperança de alcançá-lo. Era fato.

Andou desnorteado até a praça da cidade, e naquela manhã de fim de inverno, o vento frio soprava constante, fazendo voar pétalas amarelas de flores precoces que morriam antes da primavera e passavam por ele em rasantes e rodopios loucos antes de esvoaçarem novamente em outras direções. Sentou desolado num dos bancos, observando aquele microcosmo que todos os dias povoava aquele lugar; os velhos que trocavam relógios e as crianças que olhavam fascinadas o chafariz e os bêbados que buscavam a cura de suas abstinências e o esquecimento de suas tragédias, e os pombos...

Pensou naquela cidade que nunca lhe dera motivos para se orgulhar, e em como tinha vindo parar ali, e em como uma sucessão de acontecimentos aleatórios, na vida de seus pais e na vida dos pais dos seus pais, haviam levado a outros tantos fatos, que o levariam até aquela praça, naquele dia. Já havia ouvido falar no Devir dos gregos arcaicos, o fluxo contínuo de transformação da vida, só não havia conseguido a fórmula mágica para sincronizar num instante supremo o seu desejo pessoal com o desejo universal dos acontecimentos.

Sentiu como se houvesse perdido a chance, e nunca soube que ela nunca existiu, não ali.

Resolveu fazer uma nova visita a seu refúgio favorito, o antigo Cineteatro. Também não poderia prever o iminente encontro que teria com seu Destino, não poderia. E quando começou a caminhar lentamente até os acontecimentos, o fez olhando os próprios passos, não poderia notar os presságios no céu, que agora tinha nuvens mais densas que se aproximavam umas das outras sobre a cidade, enquanto ele seguia imerso em seus pensamentos sorumbáticos repletos de perguntas pertinentes e sem respostas.

Passou pela velha fachada, empoeirada, em direção à entrada lateral, antiga saída de emergência. Cenas antigas lhe passavam pela cabeça, fantasmas de antigos expectadores passavam por ele, que quase podia sentir o cheiro que aquele lugar tinha, há dez anos atrás.

Entrou pela porta dupla de metal e contemplou o palco vazio, tomado de poeira, e depois as poltronas vermelhas que se estendiam até o fim do corredor. Estava mais escuro do que de costume, àquela hora da manhã o sol já havia desaparecido por detrás dos cumulos nimbos, então resolveu caminhar até a sala do projetor, onde guardava alguns pacotes de velas que usava para iluminar o local quando trazia alguns amigos para saraus secretos durante as madrugadas.

Foi quando ouviu um clique, como de uma câmera. Subiu um lance da escada, devagar. Seu coração batia forte e devagar, como que para não fazer barulho. Já havia acontecido de encontrar moradores de rua vagando por ali uma ou outra vez. Decidiu se manifestar, tentar contato.

- Hey, tem alguém aí em cima?

Silêncio na sala.

Ele foi subindo lentamente, até que viu uma silhueta nas sombras.

- Olá?! Disse, tentando estabelecer contato com a sombra, que fez um movimento, como se fosse sacar algo do bolso, o que de fato fez. O movimento o fez paralisar, e congelado, esperou o pior. A sombra que havia sacado algo do bolso, agora esticava o braço em sua direção, apontando-lhe o que supôs que fosse uma arma, supôs não, teve tanta certeza que fechou os olhos para não ver. Depois ouviu um clique e sentiu a luz tocar-lhe o rosto. Como nada doía, decidiu abrir os olhos, então viu que a sombra apontava-lhe uma lanterna.

Começou a rir nervosamente, aliviado, e sentindo-se meio bobo. Olhou para a sombra e disse: - Achei que ia morrer agora! A sombra riu e disse: - Me desculpe, não queria assustá-lo, mas é que me assustei também! E quando ele começaria a imaginar que feição aquela voz de garota tinha, ela iluminou o próprio rosto com a lanterna, como que naqueles filmes de terror, mas o que ele viu não era nada aterrorizador, pelo contrário. Era linda. Bem branca e de cabelos bem curtos, tinha uns olhos que não achavam um consenso entre verde e azul, e que o olhavam cheios de curiosidade. E tinha algo que parecia uma câmera fotográfica pendurada no pescoço.

Ele disse à ela que achava que só ele gostava daquele lugar, e ela disse o mesmo. Ela disse que vinha às vezes fazer umas fotos, e que achava uma pena um lugar daqueles estar abandonado. Disse que se sentia tão abandonada quanto, por não ter um teatro para poder ver os filmes e as peças que adorava. Ele acendeu algumas velas, ela acendeu um cigarro e eles conversaram sobre teatro e cinema, filosofia e tédio, política e poesia. Ele contou sobre o que aconteceu mais cedo naquela manhã e ela indignou-se. Ela lhe contou aventuras do tempo da escola e ele riu. Descobriram que foram vizinhos quando crianças, e acharam absurdo não terem se conhecido antes. Ele criou diferentes iluminações com as velas nos corredores e no palco e ela fez fotos ótimas.

Conversaram como velhos amigos, trocaram confidencias. Ele falou sobre a falta que sentia da mãe, e ela confessou que odiava o pai. Enquanto isso, a roda do destino seguia no seu pique incessante rumo ao inexorável. Eram por volta das 1:30 da tarde e o céu já estava escuro, quando os primeiros trovões puderam ser ouvidos.

Ele nunca havia se sentido tão bem, e tão disposto a falar com alguém como acontecia agora, com aquela garota, e enquanto a ouvia falar, sentia uma sensação estranha, como se algo formigasse dentro dele, e as mãos suavam sem motivo aparente. O coração batia numa levada inédita e cheia de ritmo. As palavras saíam com enorme facilidade, sem pensar, como se fossem feitas pra ela. Aquele lugar que seria a suposta sepultura de seu sonho, tornara-se diferente, era agora o local de nascimento de uma nova vontade de viver.

Mas de repente, depois de tanto conversarem, houve um hiato, e veio o silêncio. Ela o olhava com seu jeito de perguntar sem nada dizer. Ele respirou, e olhando para a vela que estava entre eles, perguntou a ela qual havia sido a última vez que se apaixonara por alguém, e só então a olhou nos olhos.

Ela abraçou as pernas flexionadas contra o corpo, e olhou para o buraco no teto do prédio, e nesse momento ele pensou ter estragado tudo por ter sido afoito e não se conter o bastante. Então ela voltou seu olhar para ele, e esticando uma das pernas concluiu: - Há mais ou menos umas duas horas...

Ele enrubesceu de excitação e seu coração parecia que ia explodir, mas ele ainda a olhou e perguntou por quem e ela riu e deixou-se cair de costas no palco. Essa foi a deixa para que ele a beijasse e a introdução dos momentos eternos que se sucederam, e que seriam o mais próximo que ele chegou da divindade, o mais próximo que chegou de ser completamente feliz. A garota tinha nome de Deusa egípcia, chamava-se Ísis.

Alheio àquela aura de amor e mágica, o céu lá fora se transformava num teto de concreto, prestes a desabar. Os trovões ouvidos lembravam bombas de guerra, e a todo instante pipocavam flashes de luz, como se fosse um aviso, um toque de recolher.

Ísis precisava ir embora, lembrou-se de que havia marcado de buscar umas fotos, então despediram-se longamente, em meio à promessas de encontrarem-se novamente e trilhar um caminho juntos. Ele acompanhou-a até o lado de fora, e observou-a caminhar até sumir de vista, o que não aconteceu sem que ela olhasse uma última vez e sorrisse o sorriso mais bonito e terno do mundo.

Quando dobrou a esquina, ela parou um instante e encostou-se numa parede, fechou os olhos e inspirou um longo trago de ar úmido, sentindo-se banhada de vida por dentro. Tocou os lábios com os dedos, estimulando a memória recente dos beijos cálidos cheios de ânsia e paixão, e pensou que se o mundo inteiro se sentisse como ela naquele instante, qualquer forma de maldade seria sem sentido e necessidade. Sentia que amava a todas as coisas, e seus medos todos haviam evaporado e se transformado em algo forte como a fé, subindo aos céus como preces doces de agradecimento.

Ele havia olhado o céu escuro uma última vez antes de entrar, recolheria as velas e depois sairia. Enquanto fazia isso, pensou nos rumos tortos do destino, que nos ludibria a todos quando faz coisas realmente ruins acontecerem em nome de um bem maior posterior.

O Destino, ou seja lá o que controle as engrenagens complexas da existência, já tinha um plano traçado e todos os instrumentos à mão. Era chegado o momento, e uma pancada de chuva escorregou das nuvens pouco depois da garota decidir voltar para os braços do rapaz com nome de menino brasileiro, que soava suave aos seus ouvidos. Caê.

Por mais que ela corresse, não chegaria a tempo. Estava ela também inclusa nas linhas invisíveis que estavam sendo escritas sem que ninguém soubesse.

Já havia guardado as velas quando ouviu o som da chuva que molhava a garota e a cidade, e no corredor rente ao palco tinha a visão distante do portão externo que se abriu. Alguém caminhava rumo à entrada, parecia ela, mas não podia ter certeza por causa dos relâmpagos sucessivos, que davam aquele efeito de discoteca, quadro a quadro, passo a passo cada vez mais perto.

Ela chegou a três passos da porta e sacou a lanterna para iluminar o salão escuro, logo o viu e piscou a luz três vezes. Vendo a luz então ele teve certeza e caminhou para ela. A três passos da porta ele parou e a olhou sorrindo, ela também sorriu parada e tudo isso durou uns três segundos.

Ele abriu os braços e ela deu um passo na direção dele, e nesse momento um relâmpago os cegou, e o que se seguiu foi um estrondo muito próximo, e uma nuvem de poeira que a engoliu sem mastigar.

Após momentos de pura confusão, ela pode abrir os olhos e verificar que o que antes era a porta e todo o espaço do palco e das primeiras fileiras era agora um amontoado enorme de entulho e escombros, e sem conseguir se mover gritou tão alto que momentos depois os vizinhos do local já a amparavam em estado de choque, enquanto telefonavam para o resgate.

Encontraram-no horas depois, sem vida.

Ela não foi ao funeral, sempre preferiu conservar a imagem viva das pessoas. Pensava que seria como admirar o casulo ao invés da borboleta. Os primeiros meses após o incidente foram muito difíceis, mas serviram para que ela se reaproximasse de seu pai, melhorando muito a relação antes conturbada entre os dois.

O pai dela era um empresário muito bem sucedido, e um ano depois, ele encontrou o antigo projeto de reabilitação do Cineteatro, escrito pelo garoto, e ele e Ísis juntaram energias e captaram recursos, e mais um ano depois o re-inauguraram, e batizaram-no com o nome do rapaz.

Com isso, mais um ciclo havia se fechado e a vida seguiu seu curso. Em algum lugar, ele sorria satisfeito ao lado de sua mãe, agora com a compreensão plena de que havia escolhido dessa forma. Os dois agora olhavam por Ísis, que dedicava sua vida à arte e a cultura, e que todos os dias antes de dormir lembrava dele e se perguntava porque das coisas terem acontecido assim.

Um dia ela saberia.

 

segunda-feira, 9 de março de 2009

e só.

é apenas uma segunda
mas o céu
o céu está além do véu de nuvens
que derramam pesadas gotas
enormes lágrimas celestiais entre
soluços de trovoadas
as arvores se remexem como numa dança
como num ataque de espasmos
talvez voassem, talvez
se não estivessem presas, se não soubessem
ter raízes.

e como um galho solitário
eu ocupo a casa
balançando entre cômodos vazios
espaços deixados vagos
na mesa o maço de cigarros
apenas quatro
na embalagem que exibe um rato
morto, muito simpatico
vou acender um, preciso de um trago
em cima da geladeira há uma garrafa de cachaça
que me olha
tenta parecer atraente, o liquido estatico
e quente
tenta parecer uma boa ideia
e me lembrar dos tantos dias tortos
que consertei me fazendo torto tambem
mas não

eu só quero amor e arte

nem que seja em doses homeopaticas
mesmo que seja dolorido como sempre foi
ou que digam que já é tarde
eu só quero ela

eu só quero amor e arte.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Revolver

meu amor, o tempo rasteja. lento. lento.
 
o mau tempo persiste, uma chuva fina
 
o vento, ciscos nos meus olhos
 
eu tentando me animar, eu juro
 
eu juro que tento
 
em vão por enquanto. to sentindo muito a sua falta, cada vez mais
 
nocivo, lasciva relação entre dor, ausência, amor
 
e esses tipos de coisas. pequenos tormentos.
 
antes fossem seus olhos tempestuosos
 
antes fosse aquela chuva que nos mantem um pouco mais próximos
 
um pouco mais nossos...e de mais ninguem.
 
eu to pura abstinencia. revolvendo os confetes de um carnaval que já terminou.
 
Sem Momos, sem Pierrôs, sem...
 

009

um poeta sem sua musa soa como
um baile sem música
um vinho sem alcool na noite sem lua
zero vírgula zero porcento de inspiração é o que me move
e agora já é dois do um
dois zero zero nove
e não há o que lamentar
não há o que temer
apenas deixar que venha
o que virá
e que seja indolor
que tenha a ver
com correr e buscar
moldar esse maya antes que ele me molde
eu vou destilar essas palavras
antes que elas me afoguem
e vou soprar pra quem quiser sentir
vou ouvir quem fizer questão de cantar
e correr quando alguem me esperar
deixar que me inspirem como ar
e percorrer as veias de quem quiser provar
invadir e envolver e depois
tirar a noite pra dançar
pedir que fique o quanto quiser ficar
me munir de empatia
agora não há porque brigar
seu reflexo sumiu do meu espelho
mas eu não me canso de olhar
algo ficou
algo sempre fica pairando no ar
como se não tivesse passado tempo
e fosse possível tocar
mas as velhas coisas bonitas
aquelas pessoas imperfeitas e tão nossas
já não ocupam os mesmos lugares
são agora devaneios e frases soltas
assimilações de imagens e sons
e aromas esvaídos entre outros milhares
sei que já me peguei parado esperando
algo que não ia acontecer porque já tinha acontecido
e foi triste dar-me conta que as páginas eram outras
ainda em branco
ainda em pranto
recomecei a escrever novos parágrafos
verso verso verso e pronto
bastava começar e não olhar pra trás
sem revirar o que poderia ser
simplesmente partir daquele ponto
mas sem mentir e dizer que não imagino
um belo reencontro
regado a café e novidades
livros velhos e novas sonoridades
Jack Kerouac e Sylvia Plath
e todo o resto que só pertence a quem quiser
tudo aquilo que me arrepia só de pensar.