quinta-feira, 19 de novembro de 2009

01:36

seu silêncio me dá vontade de gritar
mas meu grito silencia
mais um trago engolido à seco
mais um sopro calado
outro poema suprimido.

dorflex, i love you so

Desperto por volta das oito da manhã
faz um dia lindo de primavera lá fora
mas no momento isso não importa
me levanto desnorteado e rumo à cozinha
uma dor lancinante percorre meu rosto
como se houvesse uma faca cravada em meu
maxilar, mas não há nada
eu abro o armário e minhas mãos trêmulas
reviram vasilhas e taplewares em busca
de analgésicos
encontro, engulo um que desliza junto
com um pouco do café de ontem
acendo um cigarro enquanto ando em
direção ao espelho, me olho
sinto medo e nojo e raiva e dor
ao notar minha face direita inchada
recheada pelo pus entumescido
inflamada
e pulsando, pulsando
pulsando.
Ando de um lado a outro sem parar
a vontade real é de ver tudo foder
quebrar, estremecer e sangrar
o instinto é o de gritar, espremer
arrancar, mas nada faço
só ando e penso penso penso
que a culpa é toda minha e isso me deixa pior
não poder culpar ninguém pela minha
degradação. Fico tenso. Outro analgésico
outro cigarro, evito o espelho porque
se eu olho dói mais além.
Ligo pra minha dentista, preciso vê-la urgente
ela marca comigo pras onze
eu fico esperando a hora passar
ela passa doendo, eu saio
chego no consultório mais monstro que gente.
Ela é bonita e simpática e me olha serena
não se importa que eu pareça o Fofão
enquanto diz que vai me apertar até
que todo o mal desapareça e eu consinto
ela falando com aquele sorriso
não parece nada mal, não
me sento em sua cadeira reclinável
a luz branca apontada pra mim
e ela começa, com sua seringa cheia
daquele líquido adorável
me encharca, anestesiado eu me sinto bem
então ela me aperta e aperta forte
eu fecho os olhos e espero ela terminar
e ela termina e eu pergunto
“foi bom pra você”?
Ela diz, “o quê”?
Eu digo, “nada”
então ela me mostra um copo de plástico
cheio de um liquido amarelo escuro
espesso
ri e pergunta se estou servido
mas eu declino, agradeço e me retiro
no corredor observo meu reflexo
que incrivelmente se parece comigo
me sinto um tolo feliz e mais leve
meu rosto formiga de um jeito engraçado
acendo um cigarro e caminho por aí
ninguém parece se assustar
não há sobressalto
apenas uma brisa leve
de um lindo dia de primavera
eu, e meu sorriso torto
anestesiado.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Volta.

minha mãe levanta a cabeça do colchão
me manda dormir
não vê que tento me redimir
escrevendo essas linhas depois de meses
de Pura paralisia literária
ela diz isso e volta a sonhar
eu fico aqui tentando espantar a catarse
remover o mofo acumulado nos meus versos
injetar nova energia
explorar outros universos
e toda essa doença instalada
já não me aterroriza
se ainda me resta poesia
e quando me perguntam o que faço
eu logo digo: nada
pois se digo que atuo e escrevo
pensam na hora que sou vagabundo
há algo de errado com esse mundo
ao menos nessa parte
artistas não são putas
nem santos, nem mártires
talvez heróis loucos
irremediavelmente apaixonados pela arte.
é difícil ser escritor
há de se ter coragem, insistência
persistência, paciência e
alguns cigarros pra queimar, enquanto tento
dispersar o branco da folha que me esvazia
a mente quando toco o caderno.
não sou obsessivo. até gostaria.
cismar de me trancar no quarto e só
sair quando escrever algo decente.
mas isso seria perigoso, talvez morresse de fome
antes de vomitar uma pérola. mas a dificuldade inspira.
se fosse fácil eu nem tentava.
bloqueio criativo é como um câncer.
se você não faz nada ele cresce e se alastra.
metástase que come inspiração à la pac-man
até que nada mais reste fora o branco
e o som do vazio.
então você tem de escolher.
abraçar o silêncio enquanto as folhas amarelam
ou gritar com tinta antes que todos se esqueçam.
agora me lembro.
sim, eu já escolhi.

sábado, 25 de julho de 2009

Eco.

depois do silêncio...você sabe.
vem o estrondo.
e vem de dentro. vem das vezes que implodi.
dos monstros que engoli.
das catástrofes que não causei
por pensar duas ou três vezes, olhar os tacos e as bolas
e janelas
e as pessoas que esperavam pra ver o que eu faria
sabendo o que eu queria e temendo por isso.
e neguei a todos, pra sofrer sozinho.
acendi cigarros pra apagar incêndios internos.
observei o céu, pra ter noção de distância.
e desejei não me lembrar. triste isso.
e comecei a caminhar...pensava blues.
afundei no asfalto.
talvez tenha derrubado uma lágrima, que se dissolveu na poça.
e me odiei, tanto quanto te amei.
mas a noite seguia. apenas deslizei, ladeira acima.
me perdi de propósito, pra ignorar vestígios.
mas cada paralelepípedo me dizia que não poderia fugir.
sentei, chorei e ri.
não há fuga, não de ti.
ainda aqui. ainda...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Down.

Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão
Eu ando tão down
Eu ando tão down

Outra vez vou te cantar, vou te gritar
Te rebocar do bar
E as paredes do meu quarto vão assistir comigo
À versão nova de uma velha história
E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora
Eu ando tão down
Eu ando tão down

Outra vez vou te esquecer
Pois nestas horas pega mal sofrer
Da privada eu vou dar com a minha cara
De babaca pintada no espelho
E me lembrar, sorrindo, que o banheiro
É a igreja de todos os bêbados
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Down... down


é...cazuza.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Implícito.

Se penso é porque dói e se escrevo é porque tá me machucando e se eu estou dizendo é porque você está cutucando a porra da ferida, e se então eu me calo, é porque eu realmente cansei de sangrar por você.

(...)

A Esfinge e sua sentença maldita. E eu, ando milhas e milhas e milhas, e sempre caio nesse corredor. Eu não sou o único. Ninguém foge de si mesmo. O passado nem sempre é tão distante e o sabor de um bom café logo se esvai.

A pergunta ainda ressoa, silenciosa, aqui dentro. Pode ouvir? Quer ver?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sobre meninos e deusas

Despertou como se houvesse despencado de um penhasco direto em sua cama. Pode ouvir uma espécie de estalo, como se sua alma estivesse mesmo muito longe, e fosse tragada de volta violentamente, atravessando qualquer tempestade ou arranha-céu ou parede que os separasse para cair novamente naquele corpo franzino, que dormia sonhos intranquilos no cômodo escuro. Talvez ela não tivesse realizado um encaixe perfeito, depois do pouso forçado, ou talvez aquela sensação estranha que ele sentia se devesse apenas aos sonhos tumultuados em imagens muito rápidas e vertiginosas, que ora o remetiam à acontecimentos de sua infância, ora lançavam imagens surreais de antigos deuses que vinham cobrar-lhe algo que nunca soubera que devia, fazendo-o alucinar cenas de castigo e danação eterna. Dessa vez foi Kali, assustadora com seus três pares de braços, armada até os dentes e sedenta por destruição, quem veio assombrá-lo.

Sentou na cama, limpando o suor da testa com as mãos, respirando fundo e olhando ao redor para reconhecer a mobília do quarto, para certificar-se que acordara exatamente onde dormira. Provou uma vez mais aquela sensação estranha e gratificante de estar vivo, e tirou os pés descalços da cama, tocando o chão frio. Ainda estava escuro e ele não sabia que horas eram. Não podia saber o que esse dia lhe reservava. Não se daria conta até o ultimo segundo desse dia, que poderia ser apenas mais um, mas seria o efêmero. O mais belo e estranho deles. Também seria o último.

Banhou-se demoradamente, repassando mentalmente tudo que diria na reunião marcada para as nove da manhã com o diretor de cultura do município, na qual trataria sobre a restauração do antigo Cineteatro da cidade. Estava até certo ponto confiante e um pouco ansioso. Havia trabalhado durante meses redigindo o projeto, distanciando-se de amigos e de seus próprios projetos, empenhando tempo e até mesmo um pouco de seu pouco dinheiro nesse sonho, que não era apenas seu. Lembrou-se das tantas sessões que acompanhara ao lado de sua mãe, que trabalhou durante muitos anos na bilheteria, antes de perder a saúde e ter de se afastar.

Já havia amanhecido quando passou sua roupa e engraxou os sapatos. Escolheu sua gravata amarela, presente que recebeu de sua mãe quando completou 15 anos. Ela dizia que realçava seus olhos. Ele a usara apenas duas vezes até então; a primeira na formatura do ginásio e a segunda no funeral da mãe. Nas duas ocasiões, quem reparou naqueles olhos, saberia que ela estava certa.

No horário marcado ele estava lá. Aguardando do lado de fora da sala, fitava a porta fechada. Depois de cerca de quarenta minutos, a secretária pediu que ele entrasse. O diretor estava sentado à sua mesa, com seu porte avantajado espalhado na cadeira, careca lustrosa e bigode impecável.

- Sente-se, meu jovem, disse ele ajeitando-se.

- Claro, obrigado, ele respondeu, sentando-se à frente do homem.

- Pois então, você disse que queria mostrar-me algo, fique à vontade, disse o diretor, fingindo interesse.

- Sim, sim, eu vim porque escrevi um projeto que visa a recuperação do antigo Cineteatro, que é um patrimônio da cidade e que foi abandonado, por que não dá uma olhada?, disse, entregando uma pasta ao diretor.

Olhava com expectativa, mas não demorou muito para ter certeza de que o que mais temia iria acontecer. Ele nem abriu, não leu uma linha, apenas segurou a pasta com aquelas mãos inchadas, gesticulando e falando com aquele olhar que transpassa sem nada notar. Começou dizendo que era uma questão deveras complexa e que na atual conjuntura, aquilo não estava nos planos e que não haveria como pautar aquilo no momento, pois haviam outras prioridades, e nessa altura o jovem rapaz já não conseguia ouvir o que ele dizia, mas já sabia de cor o que ele diria e sabia que era irreversível, só conseguia olhar para a pasta que balançava entre aqueles dedos e o suor que brotava daquele bigode e para a luz que refletia naquela cabeça, olhou em volta, para a porta, sentindo-se nauseado, quase nocauteado por aquela verdade podre na qual nunca quis acreditar, mas que sempre estivera ali.

O diretor ainda falava quando ele pediu licença e saiu da sala sem olhar para trás. Afrouxando a gravata para conseguir quem sabe um pouco mais de ar, deixou o prédio da prefeitura, sentindo ainda aquela coisa presa entre o peito e a garganta, que pulsava, pulsava e não saía. Não saberia explicar, não era apenas raiva ou desapontamento ou tristeza, revolta, inconformismo. Talvez fosse tudo aquilo, talvez fosse apenas o vazio enorme que sentia, que pesava tanto. Talvez a revelação de que seu sonho estava morto doesse muito mais do que correr uma vida inteira na esperança de alcançá-lo. Era fato.

Andou desnorteado até a praça da cidade, e naquela manhã de fim de inverno, o vento frio soprava constante, fazendo voar pétalas amarelas de flores precoces que morriam antes da primavera e passavam por ele em rasantes e rodopios loucos antes de esvoaçarem novamente em outras direções. Sentou desolado num dos bancos, observando aquele microcosmo que todos os dias povoava aquele lugar; os velhos que trocavam relógios e as crianças que olhavam fascinadas o chafariz e os bêbados que buscavam a cura de suas abstinências e o esquecimento de suas tragédias, e os pombos...

Pensou naquela cidade que nunca lhe dera motivos para se orgulhar, e em como tinha vindo parar ali, e em como uma sucessão de acontecimentos aleatórios, na vida de seus pais e na vida dos pais dos seus pais, haviam levado a outros tantos fatos, que o levariam até aquela praça, naquele dia. Já havia ouvido falar no Devir dos gregos arcaicos, o fluxo contínuo de transformação da vida, só não havia conseguido a fórmula mágica para sincronizar num instante supremo o seu desejo pessoal com o desejo universal dos acontecimentos.

Sentiu como se houvesse perdido a chance, e nunca soube que ela nunca existiu, não ali.

Resolveu fazer uma nova visita a seu refúgio favorito, o antigo Cineteatro. Também não poderia prever o iminente encontro que teria com seu Destino, não poderia. E quando começou a caminhar lentamente até os acontecimentos, o fez olhando os próprios passos, não poderia notar os presságios no céu, que agora tinha nuvens mais densas que se aproximavam umas das outras sobre a cidade, enquanto ele seguia imerso em seus pensamentos sorumbáticos repletos de perguntas pertinentes e sem respostas.

Passou pela velha fachada, empoeirada, em direção à entrada lateral, antiga saída de emergência. Cenas antigas lhe passavam pela cabeça, fantasmas de antigos expectadores passavam por ele, que quase podia sentir o cheiro que aquele lugar tinha, há dez anos atrás.

Entrou pela porta dupla de metal e contemplou o palco vazio, tomado de poeira, e depois as poltronas vermelhas que se estendiam até o fim do corredor. Estava mais escuro do que de costume, àquela hora da manhã o sol já havia desaparecido por detrás dos cumulos nimbos, então resolveu caminhar até a sala do projetor, onde guardava alguns pacotes de velas que usava para iluminar o local quando trazia alguns amigos para saraus secretos durante as madrugadas.

Foi quando ouviu um clique, como de uma câmera. Subiu um lance da escada, devagar. Seu coração batia forte e devagar, como que para não fazer barulho. Já havia acontecido de encontrar moradores de rua vagando por ali uma ou outra vez. Decidiu se manifestar, tentar contato.

- Hey, tem alguém aí em cima?

Silêncio na sala.

Ele foi subindo lentamente, até que viu uma silhueta nas sombras.

- Olá?! Disse, tentando estabelecer contato com a sombra, que fez um movimento, como se fosse sacar algo do bolso, o que de fato fez. O movimento o fez paralisar, e congelado, esperou o pior. A sombra que havia sacado algo do bolso, agora esticava o braço em sua direção, apontando-lhe o que supôs que fosse uma arma, supôs não, teve tanta certeza que fechou os olhos para não ver. Depois ouviu um clique e sentiu a luz tocar-lhe o rosto. Como nada doía, decidiu abrir os olhos, então viu que a sombra apontava-lhe uma lanterna.

Começou a rir nervosamente, aliviado, e sentindo-se meio bobo. Olhou para a sombra e disse: - Achei que ia morrer agora! A sombra riu e disse: - Me desculpe, não queria assustá-lo, mas é que me assustei também! E quando ele começaria a imaginar que feição aquela voz de garota tinha, ela iluminou o próprio rosto com a lanterna, como que naqueles filmes de terror, mas o que ele viu não era nada aterrorizador, pelo contrário. Era linda. Bem branca e de cabelos bem curtos, tinha uns olhos que não achavam um consenso entre verde e azul, e que o olhavam cheios de curiosidade. E tinha algo que parecia uma câmera fotográfica pendurada no pescoço.

Ele disse à ela que achava que só ele gostava daquele lugar, e ela disse o mesmo. Ela disse que vinha às vezes fazer umas fotos, e que achava uma pena um lugar daqueles estar abandonado. Disse que se sentia tão abandonada quanto, por não ter um teatro para poder ver os filmes e as peças que adorava. Ele acendeu algumas velas, ela acendeu um cigarro e eles conversaram sobre teatro e cinema, filosofia e tédio, política e poesia. Ele contou sobre o que aconteceu mais cedo naquela manhã e ela indignou-se. Ela lhe contou aventuras do tempo da escola e ele riu. Descobriram que foram vizinhos quando crianças, e acharam absurdo não terem se conhecido antes. Ele criou diferentes iluminações com as velas nos corredores e no palco e ela fez fotos ótimas.

Conversaram como velhos amigos, trocaram confidencias. Ele falou sobre a falta que sentia da mãe, e ela confessou que odiava o pai. Enquanto isso, a roda do destino seguia no seu pique incessante rumo ao inexorável. Eram por volta das 1:30 da tarde e o céu já estava escuro, quando os primeiros trovões puderam ser ouvidos.

Ele nunca havia se sentido tão bem, e tão disposto a falar com alguém como acontecia agora, com aquela garota, e enquanto a ouvia falar, sentia uma sensação estranha, como se algo formigasse dentro dele, e as mãos suavam sem motivo aparente. O coração batia numa levada inédita e cheia de ritmo. As palavras saíam com enorme facilidade, sem pensar, como se fossem feitas pra ela. Aquele lugar que seria a suposta sepultura de seu sonho, tornara-se diferente, era agora o local de nascimento de uma nova vontade de viver.

Mas de repente, depois de tanto conversarem, houve um hiato, e veio o silêncio. Ela o olhava com seu jeito de perguntar sem nada dizer. Ele respirou, e olhando para a vela que estava entre eles, perguntou a ela qual havia sido a última vez que se apaixonara por alguém, e só então a olhou nos olhos.

Ela abraçou as pernas flexionadas contra o corpo, e olhou para o buraco no teto do prédio, e nesse momento ele pensou ter estragado tudo por ter sido afoito e não se conter o bastante. Então ela voltou seu olhar para ele, e esticando uma das pernas concluiu: - Há mais ou menos umas duas horas...

Ele enrubesceu de excitação e seu coração parecia que ia explodir, mas ele ainda a olhou e perguntou por quem e ela riu e deixou-se cair de costas no palco. Essa foi a deixa para que ele a beijasse e a introdução dos momentos eternos que se sucederam, e que seriam o mais próximo que ele chegou da divindade, o mais próximo que chegou de ser completamente feliz. A garota tinha nome de Deusa egípcia, chamava-se Ísis.

Alheio àquela aura de amor e mágica, o céu lá fora se transformava num teto de concreto, prestes a desabar. Os trovões ouvidos lembravam bombas de guerra, e a todo instante pipocavam flashes de luz, como se fosse um aviso, um toque de recolher.

Ísis precisava ir embora, lembrou-se de que havia marcado de buscar umas fotos, então despediram-se longamente, em meio à promessas de encontrarem-se novamente e trilhar um caminho juntos. Ele acompanhou-a até o lado de fora, e observou-a caminhar até sumir de vista, o que não aconteceu sem que ela olhasse uma última vez e sorrisse o sorriso mais bonito e terno do mundo.

Quando dobrou a esquina, ela parou um instante e encostou-se numa parede, fechou os olhos e inspirou um longo trago de ar úmido, sentindo-se banhada de vida por dentro. Tocou os lábios com os dedos, estimulando a memória recente dos beijos cálidos cheios de ânsia e paixão, e pensou que se o mundo inteiro se sentisse como ela naquele instante, qualquer forma de maldade seria sem sentido e necessidade. Sentia que amava a todas as coisas, e seus medos todos haviam evaporado e se transformado em algo forte como a fé, subindo aos céus como preces doces de agradecimento.

Ele havia olhado o céu escuro uma última vez antes de entrar, recolheria as velas e depois sairia. Enquanto fazia isso, pensou nos rumos tortos do destino, que nos ludibria a todos quando faz coisas realmente ruins acontecerem em nome de um bem maior posterior.

O Destino, ou seja lá o que controle as engrenagens complexas da existência, já tinha um plano traçado e todos os instrumentos à mão. Era chegado o momento, e uma pancada de chuva escorregou das nuvens pouco depois da garota decidir voltar para os braços do rapaz com nome de menino brasileiro, que soava suave aos seus ouvidos. Caê.

Por mais que ela corresse, não chegaria a tempo. Estava ela também inclusa nas linhas invisíveis que estavam sendo escritas sem que ninguém soubesse.

Já havia guardado as velas quando ouviu o som da chuva que molhava a garota e a cidade, e no corredor rente ao palco tinha a visão distante do portão externo que se abriu. Alguém caminhava rumo à entrada, parecia ela, mas não podia ter certeza por causa dos relâmpagos sucessivos, que davam aquele efeito de discoteca, quadro a quadro, passo a passo cada vez mais perto.

Ela chegou a três passos da porta e sacou a lanterna para iluminar o salão escuro, logo o viu e piscou a luz três vezes. Vendo a luz então ele teve certeza e caminhou para ela. A três passos da porta ele parou e a olhou sorrindo, ela também sorriu parada e tudo isso durou uns três segundos.

Ele abriu os braços e ela deu um passo na direção dele, e nesse momento um relâmpago os cegou, e o que se seguiu foi um estrondo muito próximo, e uma nuvem de poeira que a engoliu sem mastigar.

Após momentos de pura confusão, ela pode abrir os olhos e verificar que o que antes era a porta e todo o espaço do palco e das primeiras fileiras era agora um amontoado enorme de entulho e escombros, e sem conseguir se mover gritou tão alto que momentos depois os vizinhos do local já a amparavam em estado de choque, enquanto telefonavam para o resgate.

Encontraram-no horas depois, sem vida.

Ela não foi ao funeral, sempre preferiu conservar a imagem viva das pessoas. Pensava que seria como admirar o casulo ao invés da borboleta. Os primeiros meses após o incidente foram muito difíceis, mas serviram para que ela se reaproximasse de seu pai, melhorando muito a relação antes conturbada entre os dois.

O pai dela era um empresário muito bem sucedido, e um ano depois, ele encontrou o antigo projeto de reabilitação do Cineteatro, escrito pelo garoto, e ele e Ísis juntaram energias e captaram recursos, e mais um ano depois o re-inauguraram, e batizaram-no com o nome do rapaz.

Com isso, mais um ciclo havia se fechado e a vida seguiu seu curso. Em algum lugar, ele sorria satisfeito ao lado de sua mãe, agora com a compreensão plena de que havia escolhido dessa forma. Os dois agora olhavam por Ísis, que dedicava sua vida à arte e a cultura, e que todos os dias antes de dormir lembrava dele e se perguntava porque das coisas terem acontecido assim.

Um dia ela saberia.