quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Enquanto eu andar distraído...


Alguém me disse outro dia, que quando você está distraído é que as melhores coisas acontecem. A expectativa geralmente é o caminho mais curto para a decepção, e nos faz agir feito idiotas na maioria das vezes. Experiência própria, também, enfim.
Aquela sexta-feira havia começado escrota, céu cinza cheio de nuvens de chumbo, aquele 'chove-não-molha', o tipo de clima que dá vontade de se enfiar num moleton, ligar um The Smiths na vitrola e não sair de casa pra nada. Eu estava tipo aquelas gordinhas depressivas de seriado americano, só que ao invés do sorvete eu comia cigarros. Níveis de misantropia no alerta vermelho, eu não queria ver ninguém. Tinha passado meus últimos 5 dias trancafiado à base de café, trabalhando no meu segundo livro (enquanto o primeiro está nas mãos dos meus editores que a cada 15 dias me escrevem com uma nova desculpa para o fato dele ainda estar engavetado), descontando toda minha raiva e tédio, mas no final das contas eu mesmo acabei descartando esses textos porque na verdade esse livro falaria de AMOR, e quando eu fui ler o que tinha escrito percebi que era um amontoado de coisas tão TRISTES que fariam alguns aviões caírem e a primavera morrer de desgosto.
Deixei para lá. Afinal, minha vida não andava tão ruim assim. Tentei ver as coisas pelo lado positivo (aquela babaquice do copo meio cheio, saca?), morava de favor na casa de parentes, no bom e velho estilo parasita, não que tivesse orgulho disso, mas era a alternativa até que eu me ajeitasse. Rola uma espécie de piedade das pessoas quando você trabalha com arte. Te tratam meio como um doente, um viciado, sei lá, alguém que precisa de ajuda, e eles te ajudam, nas esperança que você uma hora PARE. Mas eu não estava disposto a parar tão cedo. Charles Bukowski se fodeu durante um bom tempo trabalhando nos correios até chegar lá. Rimbaud escreveu dos 15 aos 19 e revolucionou a poesia, depois entrou numas de caixeiro viajante e se mandou pra África onde trabalhou como mercenário até voltar pra morrer em Marseille. Não, eu não ia parar, pra tentar me encaixar em um mundo que eu não quero viver. Nas baias dos escritórios dentro daqueles lindos prédios espelhados. Nem fodendo que eu ia virar mais um palhaço-dentro-da-caixa, preferiria morrer como um escritor mal-sucedido e honesto do que como um multimilionário cheio de sangue e suor dos outros no meu Karma. Mas sinto que divago.
Ainda era sexta (escrota), ouvi tudo que tinha dos Smiths no PC, depois passei pra Radiohead e depois Joy Division e aí cheguei no fundo do poço, peguei impulso na mola e fui tomar um banho. Nada como um banho quente, ainda mais depois de dar uma tostada (já era hora do chá da tarde...), fiquei lá um tempo, deixando a água cair nas minhas costas e pensando em coisas do tipo "como e por que surgiu o Universo" ou "por que as mulheres vão em dupla ao banheiro" ou "por que quem tem o melhor som no carro tem o pior gosto pra música", e isso durou uns 20 minutos, mas depois eu de fato me lavei (isso durou uns 5 min.) e então terminei. - (Desculpe planeta, mesmo tendo alguma consciência eu ainda faço parte desse câncer) - E no fundo acho que a Terra um dia vai nos dar uma bela sacudida como um cachorro cheio de pulgas e estarão todos no mesmo barco seja você um bom menino 'sustentável' ou não. Mas me deixa feliz saber que eu e todos os cretinos e santos do Mundo faremos uma boa ação um dia servindo de adubo pra esse lugar lindo. Mas sinto que divago de novo.
Saí do banho, e ao passar pela sala em direção a área de serviço vi que havia uma nova mensagem na minha caixa de e-mail. Era do Bill, um velho amigo que parecia o Prince. Fashionista havia se formado há pouco tempo, numa das escolas mais tradicionais de Paris. Falava que tinha um trabalho pra mim, se podia encontrá-lo logo mais a noite no novo bar da moda da cidade. Odeio bares da moda. Mas assenti em encontrá-lo para uns drinks e saber sobre o trampo, apesar do meu estilo de vida simples, precisava levantar uma grana.
Finalmente, um pouco de ação, já era hora de sair da toca, ver o que acontecia lá fora. A chuva havia dado uma trégua e eu tinha pelo menos umas duas horas até o nosso encontro. Vesti uma calça jeans (eu tenho duas) rasgada, uma camiseta branca lisa (velha) e meus heróicos converse (surrados), além de uma jaqueta de couro que encontrei em um brechó por 10$, que apesar de ser feminina caía bem em mim, e decidi fazer um esquenta no Old Beer, um boteco mais underground onde geralmente colava uma galera interessante.
Cheguei lá e haviam apenas uma meia dúzia de gatos pingados, e Sal, dono do estabelecimento já chegou me cumprimentando com sua usual simpatia "Eae seu filhodaputa sumido, qual foi, tava doente é?" e eu, "Nem, saco cheio do mundo mesmo, desce ae um conhaque são joão da barra com mel e limão pra mim, antes que eu fique doente de verdade" (um drink medicinal que está na lista de coisas relevantes aprendidas em relacionamentos anteriores), e sem perder o fôlego ele emendou "Você ainda me deve aquelas duas cervejas da semana passada, seu patife", então eu saquei minhas últimas moedas e joguei pra ele "Cobra aí as brejas mas pendura o conhaque seu capitalista do Inferno" e ele pegou e riu e foi fazer minha dose enquanto eu esperava no balcão.
Nesse meio tempo chegaram umas garotas, entre elas, Marina, namorada de um amigo meu. Ela é a coisa mais linda e é uma pessoa muito doce também, veio e me abraçou, as meninas acenaram de longe e sentaram em uma mesa na porta, ela puxou um banco e sentou do meu lado. Sal trouxe o drink, caprichado como sempre "Tomaê cusão", agradeci e quando olhei de volta pra ela percebi que havia algo errado.
"Que foi coração?" e ela disse "Adivinha?" "Nem preciso, vocês brigaram de novo e pelo mesmo motivo" e ela apenas concordou com a cabeça, depois pediu vodka. Fiquei com pena dela. O que realmente acontecia era que o cara que ela amava tinha vergonha dela, por conta de boatos de que ela tinha sido puta no tempo em que morou na Espanha, e se negava a andar de mãos dadas e fazer aqueles programinhas de casal ao lado dela. Eu sabia exatamente como ela se sentia, porque tinha passado por algo parecido, uma ex minha havia me abandonado porque eu era um artista, se sentia constrangida quando perguntavam a ela o que eu fazia e ela dizia e eles perguntavam "e o que mais ele faz?" - enfim - putas e artistas são das classes mais subestimadas nessa sociedade que vivemos, mas na real ninguém sabia de fato se ela era mesmo e não percebiam que isso não tinha a menor importância. Talvez por isso ela se esforçasse tanto pra ser legal com os outros, mas mesmo assim tinha de conviver com comentários de gente imbecil.
Decidi mudar o rumo da prosa, perguntei sobre o trabalho dela, como andava, ela adora falar disso e acabou desencanando um pouco. Contei umas piadas toscas pra fazê-la rir, deu certo. Apesar da minha personalidade maníaco-depressiva, eu gosto de fazer pessoas sorrirem. "E a Isadora?" ela perguntou, "Já esqueci", "e a Melinda?" eu "Tá viva?" "e a Bárbara?" "Não deu certo", "Putz, e a Diva, vocês tinham tudo a ver", "Pois é Má, a gente tinha, haha" e ela caiu na risada.
Faltava meia hora pro meu encontro com Bill, era o tempo de atravessar a cidade, convidei as meninas, disseram que passariam por lá mais tarde, então me despedi, peguei uma via às margens do Centro, saquei uma ponta do maço de cigarros, acendi e caminhei calmamente. Um carro de polícia passou bem do meu lado atravessando a marola, eu acenei e eles acenaram de volta, não tinham tempo pra perder comigo.
Há uns 20 metros do Lab (esse é o nome do bar da moda, estilo futurista, uns drinks que parecem mais aquela poções da bruxa do Pica-Pau, coisa dos moderninhos) já dava pra sentir o burburinho. A playboyzada e as garotas deles, uns hipsters e a galera do eletrônico, vários públicos presentes aguardavam a apresentação da dupla 'Los Mariachis', a sensação do momento, os caras realmente mandam bem, além de serem super gente fina.
Passei distraído (lesado) pelas pessoas e entrei, circulei lá dentro e encontrei Bill sentado em um canto com outro cara. Ele me viu e se levantou "Heeeey Lou, querrido (ele agora tinha um sotaque francês que o deixava muito mais gay do que o habitual), Como você tá pálido, senta 'qui com moi". E ele fez um sinal e o outro cara desapareceu, então me sentei. "E essa barrrba de mamãe não me ama querrido, qu'est-ce que c'est? Tô brrincando, você tá lindo, só prrecisa de um bom banho de Sol" e eu levei na boa, era o bom e velho Bill e pedimos uns drinks e ele me contou que precisava de mim pra um editorial de moda e eu expliquei que não era uma porra de modelo, mas o que ele queria mesmo era alguém que pudesse 'vestir um personagem', era meio que um trabalho de ator então acabei aceitando. A produção começaria em alguns dias, deveria ficar atento ao meu e-mail. E foi aí, no ápice da minha distração, que Ela surgiu - pausa dramática, a cena congela e todos os sons desaparecem como se Deus tivesse apertado o Mute, tudo que ouço é meu coração batendo como se fosse um daqueles tambores japoneses só que na velocidade 5 - o Universo descongela e ela entra deslizando pelo salão, uma Deusa Nórdica, mais ou menos 1,80 com salto alto, cabelos dourados presos elegantemente, blusinha de renda branca, uma saia curta perolada, com ares vintage, meio anos 60, só que sexy, muito sexy. Foi até o balcão e pediu um drink, enquanto isso Bill que não gostava da coisa continuou falando coisas que eu realmente não ouvi e quando percebeu que eu não estava ali ficou um pouco puto e saiu dizendo que me ligava. Mas eu não ligava mais pra nada, só conseguia olhar pra ela, mas ela não olhava pra ninguém.
Juntei os cacos do meu coração, matei minha dose e fui até o balcão, no modo piloto automático. No meio do caminho lembrei que não tinha mais um puto no bolso. Olhei ao redor, a procura dos garçons, e vi nada mais nada menos do que o Chefia, um clássico mestre dos gorós; sempre tivemos uns esquemas e quando ele andou na pior eu dei uma força pra ele, e hoje ele era minha salvação. "E aí Chefia, beleza comandante?!! Desce uma aí pra mim!" e ele na hora foi lá e preparou uma bela caipirinha (ele era um especialista nessa arte) e me trouxe logo dois copos, um pra mim e um para a donzela que estava uns três bancos à direita, cochichou algo no ouvido dela, piscou pra mim (zap, ladrão!) e sumiu na copa. Ligeiro, o velho.
Dei de louco, fiquei mexendo meu drink com o canudo, e meu estômago gelou ao sentir o cheiro dela chegando mais perto. Sentou-se do meu lado. Dei um gole displicente e deixei o copo no balcão. "Hey" ela  falou, "muito obrigado, foi muito gentil" - sua voz era doce e me virei para olhá-la e por Deus do céu, era a coisa mais linda que eu já tinha visto com esses olhos queimados de Sol - traços finos e delicados e olhos tristes de quem provavelmente estava ali para esquecer alguém. "Não foi nada, apenas achei que você gostaria de algo mais clássico e com mais teor alcoólico do que essas gororobas que eles preparam aqui normalmente", ela deu um sorriso quase imperceptível e disse "Acertou em cheio, é meu preferido" - (Chefia gênio, pensei) - mas mantive minha melhor pokerface, qualquer demonstração poderia por tudo a perder. "Você parecia meio triste, foi só uma tentativa de alegrar seu dia" - disparei, me sentindo mais confiante (na verdade eu estava bêbado já) no que ela respondeu "Na verdade eu sou assim mesmo, mas com certeza você já alegrou" - e depois dessa foi inevitável, as borboletas mortas do meu estômago ressuscitaram feito fênix, e eu soube que estava perdido de qualquer jeito. "Você por acaso acredita em amor ao primeiro drink?" arrisquei todas as fichas - all in - ela pensou um pouco e o suspense quase me matou - e então ela riu e disse "Aiai, hoje em dia eu não desacredito de nada!" e a partir daí o papo fluiu para todos os lados e dali mesmo curtimos o show. Estava ficando tarde e as pessoas já estavam indo embora. Perguntei se ela gostaria de assistir ao nascer do Sol comigo em um lugar mais calmo e ela disse "Porque não?"
Alguém me disse outro dia, que quando você está distraído é que as melhores coisas acontecem. Talvez seja verdade. Veremos.